Sonho e Sentido

Muita gente que se depara com versões resumidas ou com traduções ruins de Alice, como é o caso da animação da Disney, experimenta uma sensação desagradável de enfrentar uma narrativa “sem pé nem cabeça”, eventos que se sucedem aleatoriamente, como num sonho, onde tudo pode acontecer, o que não tem graça nenhuma. Não tenho interesse algum em ouvir descrições de sonhos alheios e não suporto cenas de sonhos em filmes, acho que deveriam ser proibidas, como o uso da lente zoom e da grande angular. Tenho parceiros ilustres na minha aversão aos sonhos como narrativa dramática. Freud uma vez recusou-se, através de uma carta, a participar da antologia de sonhos organizada por André Breton, líder do movimento surrealista, afirmando que "uma simples coletânea de sonhos sem as associações do sonhador, sem o conhecimento das circunstâncias em que eles ocorreram, não me diz nada, e mal consigo imaginar o que possa dizer aos outros".

Os eventos dos livros de Carroll não tem nada de aleatórios, fazem todo sentido para quem conhece Alice e seu mundo. O imenso prazer que a história provoca, livre da função moralizadora que até então norteava os contos infantis, vem especialmente da mistura de um peculiar senso de humor – expresso no total domínio da língua – e de uma profunda ternura, um genuíno amor pelas crianças e pela humanidade.

“As aventuras de Alice no país das maravilhas” e “Através do espelho e o que Alice encontrou lá” são obras-primas escritas para crianças, que adoravam o livro. E adoram, até hoje, quando são capazes de entender o que leem, como ensina Ivo Barroso, nesta entrevista à Cadernos de Tradução, revista da Universidade Federal de Santa Catarina:

CT: Em que tipo de situação textual, prosaica ou poética, o tradutor pode se permitir “adaptar” a sua tradução?

Ivo Barroso: Só entendo a “adaptação” como válida em casos muito particulares, principalmente naquele em que o texto, traduzido tal qual, nada dirá ao leitor brasileiro, embora seja claro e significativo para o leitor do original. Cabem aí dois recursos: encontrar uma equivalência (uma isotopia, como dizia Antônio Houaiss) ou colocar uma nota de pé de pagina, esclarecedora; de outra forma, o leitor brasileiro sairá perdendo. Em minha tradução de Os Gatos, de Eliot, tive que lançar mão várias vezes de adaptações, de equivalências, de substituições de chistes ingleses por outros tantos nossos, etc. senão seria trair o leitor apresentando-lhe versos que, engraçados em inglês, seriam anódinos numa simples tradução.

(http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/viewFile/6326/5865)

A necessidade imperiosa de recriar o texto de “Alice” na tradução é afirmada pelo próprio autor:

“O autor deseja expressar aqui o seu reconhecimento ao tradutor que substituiu por paródias de sua composição aquelas paródias de poemas da literatura inglesa que só fazem sentido para as crianças inglesas, e que soube nos restituir em trocadilhos franceses equivalentes aos trocadilhos em inglês, sem o que a tradução não seria possível”.

Carta de Lewis Carroll ao seu tradutor francês, Henri Bué, 1869.

O filme de Tim Burton, espero, deve reacender o interesse por Alice e seus sonhos, mas para quem quiser conhecer a imaginação prodigiosa, o vigor criativo e o gênio de Lewis Carroll, o mínimo a fazer é ler seus livros.