FAUSTINA

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               FAUSTINA
               episódio da série
               CONTOS DE INVERNO 2002

               argumento e roteiro de
               Carlos Gerbase

               coordenação de texto da série
               Jorge Furtado
               e Giba Assis Brasil

               Versão 27/03/2002

               produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
               para RBS TV

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CENA 1 - RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA

FAUSTINA, 25 anos, uma garota bonita, mas de expressão muito
séria, vestida como se estivesse na década de 50 e sem qualquer
maquiagem - caminha por uma rua movimentada num belo dia de sol
(apesar do frio). Pára na frente de um edifício comercial, abre a
bolsa, pega uma agenda e abre numa página cheia de recortes de
anúncios classificados, colados com capricho. Consulta um dos
anúncios e guarda a agenda.  Num gesto rápido, beija o
escapulário que usa no pescoço. Entra no edifício. Sai do
edifício, com expressão desanimada. Pega a agenda e dá uma
olhada.

CENA 2 - OUTRA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA

Faustina beija o escapulário e entra em outro edifício. Sai do
edifício, com expressão desanimada. Pega a agenda e dá uma
olhada.

CENA 3 - MAIS UMA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA

Faustina beija - três vezes - o escapulário e entra num terceiro
edifício. Sai do edifício, com expressão desanimada. Pega a
agenda e dá uma olhada.

               FAUSTINA
               (murmurando) Que inferno!

CENA 4 - UMA QUARTA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA

Faustina, com ar cansado, mais desanimada que nunca, caminha com
a agenda na mão. Pára, arranca a folha dos classificados e a joga
no lixo. Neste momento, ouve um trovão forte. Ela olha para o céu
e estranha, pois o sol continua a brilhar. Novo trovão. Uma nuvem
escura aparece de repente. Toca o celular. Ela pára, na frente de
um edifício cujo número é 666, e ela atende.

               FAUSTINA
               Alô.

               DEMÓSTENES
               (OFF) Alô, Tina? Demóstenes.

               FAUSTINA
               Ôi, tio.

               DEMÓSTENES
               (OFF) A tua mãe me disse que tu tá procurando
               emprego.

               FAUSTINA
               (contendo o entusiasmo) É... Quer dizer. Eu tive
               várias propostas. Muitas propostas. Mas ainda não
               me decidi.

               DEMÓSTENES
               (OFF) Tem uma vaga para Relações Públicas aqui na
               companhia. Dá uma passada aqui.

               FAUSTINA
               Claro, tio. Eu passo, sim.

               DEMÓSTENES
               (OFF) Um beijo, Tina.

               FAUSTINA
               Um beijo, tio.  

Faustina desliga o celular. Ouve-se um trovão muito forte. Começa
a chover. Faustina, surpresa, corre para se abrigar, mas está
muito feliz.

CENA 5 - SALA DE DEMÓSTENES - INT/DIA

A sala é ultra moderna, com móveis ousados e decoração high-tech,
mas não há um único computador à vista. Faustina está com um
figurino diferente do das cenas anteriores, mas este é igualmente
conservador e careta. DEMÓSTENES (50-60 anos) veste-se
elegantemente, com terno e gravata de corte impecável. Eles estão
sentados frente à frente, com a grande mesa de Demóstenes
separando-os. Vê-se uma placa sobre a mesa, onde está escrito:
"Demóstenes Ferluci. Vice-Presidente".  

               DEMÓSTENES
               (sorridente) Eu quero que uma coisa fique bem
               clara: não estou te contratando porque tu é minha
               sobrinha.  Eu tenho excelentes referências a teu
               respeito.

Tina sorri, agradecida.

               DEMÓSTENES
               Eu sei que tu ainda não tem experiência
               profissional, mas conheço bem o teu "curriculo-
               vitae".

               FAUSTINA
               Tio, pode ter certeza, as minha intenções são as
               melhores possíveis.

Demóstenes levanta-se e aproxima-se de Tina.

               DEMÓSTENES
               (melífluo, sedutor) Tina, querida, cuidado. Tu
               deve saber que, de boas intenções, o inferno está
               cheio.

Faustina, sorrindo, pega o escapulário e  mostra ao tio.

               FAUSTINA
               Eu sei, mas eu tenho muita fé e...

Demóstenes imediatamente vira o rosto e afasta-se de Faustina.
Fala sem olhar para ela.

               DEMÓSTENES
               (cortando) A fé, sem dúvida, é uma coisa
               extraordinária. Vamos visitar a firma?

CENA 6 - EMPRESA DE SOFTWARE - INT/DIA

Demóstenes mostra a empresa, que é formada, basicamente, por
GENTE NA FRENTE DE COMPUTADORES, trabalhando em cubículos. A
quantidade de cubículos é enorme (podemos multiplicá-los
digitalmente num plano aberto inicial). Eles vão passando pelos
cubículos e dando rápidas espiadas para dentro. O interior dos
cubículos, com exceção das pessoas, é exatamente o mesmo.

               DEMÓSTENES
               Aqui é o setor de Pesquisa e Desenvolvimento.

Dão mais alguns passos.

               DEMÓSTENES
               Aqui é a área de Integração de Sistemas.

Mais alguns passos.

               DEMÓSTENES
               E aqui fica o Departamento de Tecnologia.

               FAUSTINA
               Tio, posso fazer um pergunta?

               DEMÓSTENES
               Claro.

               FAUSTINA
               Quis são os principais produtos da firma?

               DEMÓSTENES
               Nós criamos soluções para plataformas multiuso,
               programas para armazenamento de dados que fazem
               ponte entre redes tradicionais e de fibra ótica e
               ferramentas que aplicam processamento high-end em
               sistemas que trabalham com pacotes, filtrando,
               classificando e encriptando os dados de forma
               segura.

               FAUSTINA
               (sem entender nada) Ah...
 
               DEMÓSTENES
               Desculpe se usei termos muito técnicos, Tina.
               Resumindo: trabalhamos com tecnologia para dados e
               com firewalls. Eu, pessoalmente, adoro firewalls.
               Eu sonho com firewalls imensos, gigantescos. (vai
               ficando entusiasmado) Firewalls infinitos, que
               subam aos céus e acabem de uma vez por todas
               com... (ele se dá conta da própria excitação)
               Desculpe, Tina. Eu sempre me emociono quando falo
               dos meus sonhos.

               FAUSTINA
               Deve ser ótimo trabalhar com tanto entusiasmo.

               DEMÓSTENES
               (já mais calmo) É mesmo. E olha que eu estou nessa
               há séculos. Tina, querida, vamos conhecer a tua
               sala?

CENA 7 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA

Demóstenes e Faustina entram numa sala agradável, decorada com
bom gosto. Sobre a mesa, ao lado de um computador de última
geração,  um vaso com flores. JOSIARA  - 20 anos, garota bonita,
provocante e cheia de vida - está de pé, simpática e sorridente,
com um bloco de anotações na mão. A roupa de Josiara, pródiga em
decotes, e sua maquiagem, de tons fortes, contrastam com a
caretice de Faustina.

               DEMÓSTENES
               (apontando para Josiara) Essa é a Josiara. Ela vai
               ser tua secretária. Fala muitas línguas. Tantas
               que nem vale a pena contar.

As duas garotas apertam as mãos.

               FAUSTINA
               Prazer, Faustina.

               JOSIARA
               O prazer é meu.

               DEMÓSTENES
               Agora eu vou pedir licença, porque vocês têm muita
               coisa pra conversar. (para Tina) Se precisar de
               alguma coisa, vem falar comigo.

               FAUSTINA
               Claro, tio. Muito obrigada por tudo.

               DEMÓSTENES
               Nada de "obrigado, tio". Aqui se faz, (aponta
               rapidamente para o chão) logo ali se paga. Eu
               tenho certeza que não vou me arrepender da minha
               escolha.

Demóstenes sai da sala. Faustina senta em sua mesa e faz sinal
para que Josiara sente numa cadeira à sua frente.

               FAUSTINA
               Tu trabalha há tempo na companhia?

               JOSIARA
               Muito tempo. Muito mesmo.

               FAUSTINA
               Que bom. Assim vai ficar bem mais fácil.

Faustina abre um documento em branco no processador de textos do
computador e escreve "NOME DA EMPRESA:"

               FAUSTINA
               Em primeiro lugar, qual é o nome da empresa?

               JOSIARA
               Como assim?

               FAUSTINA
               O nome, a razão social da firma.

               JOSIARA
               É que são vários.

               FAUSTINA
               Claro, eu entendo. É uma holding. Qual é a empresa
               líder?   

               JOSIARA
               Como assim?

               FAUSTINA
               Qual é o nome da empresa que lidera o
               conglomerado?

               JOSIARA
               Isso é questão de ponto de vista. Recentemente as
               administrações da Ferluci S.A. ("Ferlucinet") e da
               Ferlucitel Participações S.A. em cumprimento ao
               disposto nas Instruções CVM no. 319/02, submeteram
               à apreciação e deliberação dos seus acionistas os
               termos, condições e justificativas de uma
               reestruturação societária e operacional envolvendo
               a Ferlucinet e sua controladora Ferlucitel, que é
               100% controlada pela Tanassa Participações Ltda.
               ("Tanassapar"), que por sua vez é 100% controlada
               pela Ferluci Participações S.A. ("Ferlucipar"),
               através da qual a Ferlucinet incorporará o
               patrimônio da Ferlucitel, que será extinta na data
               de sua incorporação à Ferlucinet, sendo que
               algumas etapas preparatórias para esta
               reestruturação já foram realizadas.

               FAUSTINA
               Vamos simplificar: quando os clientes ligam pra
               cá, o que a telefonista diz quando atende?

               JOSIARA
               Não sei. Nunca trabalhei perto da telefonista.

               FAUSTINA
               (impaciente) Tudo bem. Quando te perguntam onde tu
               trabalha, o que tu responde?

               JOSIARA
               (sorridente) Não respondo. É preciso tomar muito
               cuidado para não ferir suscetibilidades neste
               ramo.

Faustina respira fundo e lança um sorriso condescendente para
Josiara.

               FAUSTINA
               Tudo bem. Vamos deixar o nome da empresa pra
               depois.

Volta a teclar. Em baixo da linha já digitada, escreve: "Direto
residente:". Na linha seguinte, começa escrever: "Vice-presid..."

               FAUSTINA
               (teclando) Eu já sei o nome do vice-presidente,
               Demóstenes Ferluci. O nome do presidente é...

               JOSIARA
               É...

               FAUSTINA
               É...

               JOSIARA
               A senhora não vai dizer?

               FAUSTINA
               Não. Eu ainda não sei. Tô esperando tu dizer.

               JOSIARA
               O nome do presidente?

               FAUSTINA
               Não vem me dizer que são vários!

               JOSIARA
               Claro que não. Só há um presidente.

               FAUSTINA
               Que se chama...

               JOSIARA
               Todo mundo chama ele de... presidente.

Faustina levanta, impaciente.

               FAUSTINA
                Olha, Josiara. Eu garanto que toda empresa tem
               razão social e todo presidente tem nome.

               JOSIARA
               Eu sei.

               FAUSTINA
               O Demóstenes me disse que havia uma outra RP
               trabalhando na companhia antes da minha
               contratação. Tu trabalhava com ela?

               JOSIARA
               Não. Ela tinha a sua própria secretária. As duas
               ficaram doentes juntas.

               FAUSTINA
               Mas aposto que elas sabiam o nome da firma e o
               nome do presidente.

               JOSIARA
               (confusa) A senhora quer apostar comigo?

               FAUSTINA
               Claro que não! Eu só quero entender como eu vou
               fazer um trabalho de Relações Públicas se eu não
               tenho a menor idéia do que a empresa produz, não
               sei a razão social, nem o nome do diretor-
               presidente.

               JOSIARA
               Deve ser difícil mesmo.

               FAUSTINA
               (perdendo definitivamente a paciência) Não
               perguntei a tua opinião!

               JOSIARA
               (humilde e submissa) Desculpa.  

Faustina olha para Josiara, que está com os olhos no chão, e
respira fundo mais uma vez.

               FAUSTINA
               Eu é que peço desculpas. Josiara, eu estou um
               pouco estressada. Quem sabe a gente continua a
               nossa conversa mais tarde? Eu vou examinar alguns
               documentos e tentar descobrir algumas coisas no
               computador. Por falar nisso, tu sabe se eu tenho
               alguma senha para entrar na rede administrativa?

               JOSIARA
               (feliz, vitoriosa) Isso eu sei! A senha da senhora
               é meia, meia, meia.

               FAUSTINA
               Meia, meia, meia?

               JOSIARA
               Exatamente. Eu sei porque é igual à minha.

               FAUSTINA
               As nossas senhas são iguais?

               JOSIARA
               São. Eu também achava estranho, mas aí alguém me
               explicou: elas tem que ser iguais por causa do
               tipo de firewall.

               FAUSTINA
               Claro. Entendi.

               JOSIARA
               Eu estou logo ali, na ante-sala. Qualquer coisa, a
               senhora me chama.

Josiara vai e fecha a porta. Faustina senta no computador, acessa
a rede e, ao ser solicitada a digitar a senha, escreve "666" e dá
enter.

CENA 8 - EMPRESA DE SOFTWARE/SALA DE FAUSTINA - INT/DIA

Seqüência de montagem. Trilha. Faustina com diversas roupas
diferentes (mas sempre conservadoras), fala com Josiara, percorre
a empresa, entra nos cubículos e conversa com FUNCIONÁRIOS (os
mesmos que aparecerem nos cubículos), consulta arquivos, toma
notas, mexe no seu computador, vai bisbilhotar salas mais
afastadas da empresa etc.

Finalmente entra em sua sala, com Josiara nos seus calcanhares.
Faustina senta, exausta.

               FAUSTINA
               Vamos ter que desmarcar a festinha de
               confraternização.

               JOSIARA
               Por quê?

               FAUSTINA
               O Departamento de Tecnologia inteiro vai fazer
               hora-extra no sábado. Não podemos fazer uma
               confraternização sem um departamento inteiro.

               JOSIARA
               Por que não?

               FAUSTINA
               Má política de relações públicas. Eles podem  se
               sentir discriminados.

               JOSIARA
               Então fazemos domingo.

               FAUSTINA
               Domingo não seria festa, seria castigo.
               Conseguimos localizar algum exemplar daquele
               jornalzinho da companhia que saiu no ano passado?

               JOSIARA
               Claro.

Faustina fica agradavelmente espantada.

               FAUSTINA
               Onde está?

               JOSIARA
               Aqui mesmo.

Josiara vai até uma estante, pega um jornalzinho - bem bacana, a
cores, papel couchê - e o estende para Faustina, que
imediatamente começa a folheá-lo. São apenas oito páginas, com
fotos de Diógenes e de funcionários nos seus cubículos

               FAUSTINA
               (lendo baixinho) Direção prevê crescimento
               recorde. Nova política de RH será implantada em
               dezembro. Exportações de software ajudam na
               balança comercial brasileira.  Não é possível! Não
               tem foto do diretor-presidente! Não tem o nome da
               empresa! Não tem o nome de nenhum cliente! Pra mim
               chega!

Faustina sai da sala, quase correndo. Josiara fica preocupada.

               JOSIARA
               Calma, Dona Faustina! Calma!

CENA 9 - SALA DE DEMÓSTENES - INT/DIA

Faustina, transtornada, invade a sala de Demóstenes, que está
fumando um charuto, com toda a tranqüilidade do mundo.

               FAUSTINA
               Tio, eu não agüento mais.

               DEMÓSTENES
               O que foi, Tina?

               FAUSTINA
               Se eu ficar mais um dia sem produzir nada de útil,
               enlouqueço. Eu sei o que fazer para essa empresa
               ter maior visibilidade, para melhorar as relações
               internas, para crescer no conceito dos nossos
               clientes.

               DEMÓSTENES
               Ótimo! É isso que estamos precisando.

               FAUSTINA
               Mas eu não consigo executar nada! Absolutamente
               nada!

               DEMÓSTENES
               Então tem alguma coisa errada, minha filha.

               FAUSTINA
               Muito errada. Por exemplo: o senhor pode me dizer,
               agora, qual é o nome dessa empresa?

               DEMÓSTENES
               É que...

               FAUSTINA
               É que são muitos, já sei. Então uma pergunta mais
               fácil: como se chama o nosso patrão, o big-boss, o
               diretor-presidente?

               DEMÓSTENES
               (sorrindo) Isso não é problema. O patrão sou eu.
               Quem é que te contratou? Quem é que está sempre
               aqui? Sou eu: Demóstenes Ferluci.

               FAUSTINA
               Eu não posso usar o nome do vice-presidente sem
               citar o presidente. É contra todas as normas.

               DEMÓSTENES
               Ele é um velho idiota, que não manda nada. Mais
               dia, menos dia, ele vai ser definitivamente
               afastado da firma. Esse cargo de diretor-
               presidente é... (pensa um pouco) Honorífico. Não
               precisamos desse inútil para nada. Ele tem mania
               de grandeza, mas na verdade é a mais ridícula das
               criaturas.   

               FAUSTINA
               Então, por favor, me diz o nome de um cliente, um
               só cliente, da nossa empresa. Aí eu terei um
               endereço para mandar uma mala-direta. Eu sonho
               todas as noite em mandar uma mala-direta. (quase
               gritando) Pelo amor de Deus, tio!  

Demóstenes, pela primeira vez, sente-se atingido pelas
reclamações de Tina. Levanta e aproxima-se dela.

               DEMÓSTENES
               Calma, Tina. Não vamos baixar o nível. Nós temos
               muitos clientes. Quem não está envolvido com as
               grandes redes de informação? Ninguém? Todos são
               nossos clientes em potencial.

               FAUSTINA
               Mas eu não posso mandar uma mala-direta para toda
               a humanidade.

               DEMÓSTENES
               Claro que não. Nós temos que selecionar.

Demóstenes ajoelha-se na frente da sobrinha e paternalmente pega
suas mãos.

               DEMÓSTENES
               Eu já esperava que esse momento fosse chegar. Até
               pensei que chegaria antes. Mas, tudo bem, chegou a
               hora. Eu sei de algumas coisas que tu não sabe
               sobre Relações Públicas. E eu sei, não porque sou
               vice-presidente, mas porque sou velho.

               FAUSTINA
               Tu nem é tão velho, tio.

               DEMÓSTENES
               Sou. Eu já comi o pão que eu mesmo amassei. Tina,
               querida, eu sei do teu esforço. Mas... Às vezes,
               fazer tudo pela cartilha não é a melhor opção. Eu
               sempre dizia isso para o teu finado pai.

               FAUSTINA
               Eu nem ligo mais pra cartilha, tio. Ela não me
               ajudou em nada.

Demóstenes levanta, vai para as costas de Faustina e faz uma
massagem em suas costas.

               DEMÓSTENES
               Em primeiro lugar, vamos relaxar. E vamos lembrar
               de algumas verdades básicas da vida. Tina, com
               todo o respeito, tu deve saber que tu é uma garota
               muito bonita.

               FAUSTINA
               (frágil,  sincera) A beleza também nunca me ajudou
               em nada.

               DEMÓSTENES
               Mas deveria. Toda mulher bonita tem uma arma
               poderosa em suas mãos. Eu diria que tu, minha
               querida, tem um verdadeiro arsenal.

               FAUSTINA
               Eu não estou entendendo.

               DEMÓSTENES
               Há milhares de anos, quando a primeira mulher teve
               que fazer o primeiro trabalho de relações públicas
               da história, que estava relacionado com a imagem
               de um certa fruta, ainda pouco conhecida, ela usou
               a mais poderosa das armas femininas.

Demóstenes interrompe a massagem, puxa uma cadeira e senta bem na
frente de Tina.

               DEMÓSTENES
               E deu certo.

               FAUSTINA
               Que arma é essa?

               DEMÓSTENES
               A sedução.

               FAUSTINA
               Mas eu não sou sedutora.

               DEMÓSTENES
               Relações-públicas sem sedução é como sorvete sem
               açúcar, como bolo de aniversário sem velinhas,
               como homem sem pecado. Tina, tu tem certeza,
               certeza absoluta, que quer alcança o sucesso na
               vida profissional?

               FAUSTINA
               Tenho.

               DEMÓSTENES
               Então é bem simples, querida. Eu vou te explicar
               tudinho, como se vestir, como se maquiar, para que
               os clientes olhem para você como um diabético olha
               para um pudim de leite condensado. Eu diria que
               chegou a hora de fazer um ótimo negócio: (pausa
               dramática exagerada) vender a tua alma para o
               diabo.

Faustina olha para Demóstenes, surpresa.
 

CENA 10  - RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA

Faustina, vestida com a caretice de sempre, está na rua,
estendendo uma maçã para um BANDO DE EMPRESÁRIOS, de terno e
gravata, que passam direto, sem olhar para ela.

O brilho de um raio, associado ao ribombar de um trovão, faz a
passagem para a próxima imagem.

CENA 11 - PARAÍSO - EXT/DIA

Faustina, em local paradisíaco, ao abrigo de uma grande árvore, é
uma Eva pós-moderna, vestida com ousadia e muito maquiada,
oferecendo  todo tipo de fruta (a última é um melancia imensa)
para os empresários, que se lambuzam completamente ao comer e
depois beijam seus pés.

CENA 12 - APTO. DE FAUSTINA - INT/DIA

Faustina acorda, assustada, já de manhã.  Toma banho, coloca suas
roupas de sempre e se olha no espelho do banheiro. De repente,
arranca o escapulário do pescoço.  

CENA 13 - EMPRESA DE SOFTWARE - INT/DIA

Faustina caminha entre os cubículos. Ela está radicalmente
transformada: vestido sensual, maquiagem, saltos altos e um
sorriso sedutor. Por onde passa, arranca olhares de desejo e
admiração.

CENA 14 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA

Faustina, em sua mesa, fala com Josiara, que vai anotando tudo no
seu caderninho:

               FAUSTINA
               Vamos marcar algumas visitas: jornais, TVs,
               rádios. E também em algumas empresas. Diz que
               temos uma proposta irrecusável a fazer. Se te
               perguntarem qual é, diz que não sabe. Eu também
               não sei. Na hora eu resolvo.   

Faustina levanta e caminha enquanto fala:

               FAUSTINA
               Vamos organizar uma festa-surpresa para o tio.
               Quero o melhor serviço de bufê da cidade, que
               vamos colocar como despesas culturais. E os
               brindes! Não podemos esquecer os brindes: esquece
               aquele negócio de calendário e agenda. (pensa um
               pouco) Vamos fazer um brinde bem diferente.

Faustina chega bem perto de Josiara e fala em voz mais baixa:

               FAUSTINA
               Sexta tem um coquetel na Fiergs. Os figurões vão
               estar todos lá. Não recebemos convite, mas eu
               tenho que ir nesse coquetel. Dá um jeito de
               conseguir o convite. Se for preciso, suborna
               alguém. Tá entendido?

               JOSIARA
               (bem feliz e entusiasmada) Perfeitamente. É só
               isso, Tina?

               FAUSTINA
               Só. Vou sair pra comprar um vestido pra essa
               coquetel.

Faustina olha para Josiara.

               FAUSTINA
               Ou melhor, NÓS vamos sair. Esse teu decote já saiu
               da moda faz séculos.

CENA 15 - CENÁRIO DE PROGRAMA DE ENTREVISTAS NA TV - INT/DIA

Faustina é entrevistada por APRSENTADOR(A) de TV.

               APRESENTADOR(A)
               Nossa convidada de hoje é uma jovem profissional
               de relações-públicas que fez uma verdadeira
               revolução numa empresa gaúcha de programas para
               computadores: Faustina Ferluci. Acho que todos
               vocês já devem conhecer a Faustina, de tanto que
               ela apareceu nas colunas sociais, nas páginas de
               economia, nas revistas de gente famosa. Tudo bom,
               Faustina?

               FAUSTINA
               (sorridente) Tudo.

               APRESENTADOR(A)
               A Faustina não aparece na mídia por vaidade. De
               jeito nenhum. Ela tinha uma missão a cumprir. E
               quem vai falar sobre essa missão é o empresário
               Demóstenes Ferluci. Esse é o seu depoimento, que
               gravamos esta manhã:

Entra a imagem de Demóstenes no monitor do estúdio.

               DEMÓSTENES
               A Faustina, em curtíssimo espaço de tempo,
               conseguiu transformar a imagem da nossa empresa,
               que hoje é conhecida em todo o país e no exterior.
               Ela é uma profissional excepcional, que...

CENA 16 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA

A mão de Faustina desliga a TV. Ela e Josiara estão na frente do
aparelho.

               JOSIARA
               Por quê desligou?

               FAUSTINA
               Porque não podemos perder tempo. Agora é o momento
               de consolidar a imagem da companhia. E sabe o que
               tá faltando? Alguma coisa concreta, uma prova de
               que essa empresa não é virtual, que ela gera
               empregos, que é sólida e tem futuro. Isso não se
               conquista com textos. Precisamos de um comercial
               para a TV com imagens da companhia.

               JOSIARA
               Já sei! Vamos mostrar nosso pessoal trabalhando
               nos computadores.

               FAUSTINA
               Naqueles cubículos? De jeito nenhum. Precisamos de
               algo grande, de algo realmente cinematográfico!

               JOSIARA
               Será que isso não é muito caro?

               FAUSTINA
               (sorrindo) Depende.

CENA 17 - HELICÓPTERO OU TECO-TECO - EXT/DIA

(Observação: vamos filmar com a aeronave no chão. Precisaremos de
dois ventiladores industriais, dos grandes)

Faustina está com uma câmara DV em punho, gravando as imagens
enquanto o helicóptero/teco-teco cruza os céus. Além dela, apenas
o PILOTO está na aeronave..

               FAUSTINA
               Dá mais uma volta no prédio, por favor.

De repente, começa a nevar (se a neve não entrar na cena 4).

               FAUSTINA
               Que lindo! Eu nunca tinha visto neve. Mas não é
               perigoso?

PILOTO - Não sei. Eu nunca voei com neve.

               FAUSTINA
               As imagens vão ficar lindas!

Faustina se concentra na câmara. O piloto leva a mão ao peito,
geme baixinho e desmaia, como se tivesse um enfarte. O aparelho
começa a perder altura. Faustina vira-se e grita:

               FAUSTINA
               O que aconteceu?

Em vez do piloto, é Demóstenes que está sentado no assento ao
lado de Faustina. Ele está tranqüilo e sorridente. Não segura o
manche. A aeronave está caindo.

               FAUSTINA
               Tio? Cadê o piloto?

               DEMÓSTENES
               Já foi.

               FAUSTINA
               Tu sabe pilotar?

               DEMÓSTENES
               Eu sei tudo.

               FAUSTINA
               Então segura esse negócio, pelo amor de Deus!

               DEMÓSTENES
               (com cara de nojo) De jeito nenhum.

               FAUSTINA
               (apavorada) Tio, o que tu tá fazendo?

               DEMÓSTENES
               Estou cobrando uma dívida, querida.  

               FAUSTINA
               Que dívida?

               DEMÓSTENES
               A tua. Lembra do nosso acordo? A tua alma me
               pertence. Por enquanto, ainda está presa no teu
               corpo, mas, considerando nossa atual situação, não
               vai demorar muito para que esteja livre.

               FAUSTINA
               Eu não vendi minha alma!

               DEMÓSTENES
               Claro que vendeu, Tina. Ou tu acha que virou a
               melhor Relações Públicas da Terra só porque
               arrancou o escapulário do pescoço e passou a usar
               batom?

               FAUSTINA
               (horrorizada) Mas eu não tive tempo para fazer
               tudo o que queria! Pensa na companhia!

               DEMÓSTENES
               Acho que a Josiara vai dar conta do recado.
               Querida sobrinha, trato é trato.
 
               FAUSTINA
               Mas eu fui enganada! Que história é essa de neve
               em Porto Alegre? Justo quando eu tava voando! Foi
               tu quem mandou a neve!

               DEMÓSTENES
               (rindo) Eu? Tu conhece bem a firma. Não temos esse
               departamento por lá. Desde pequenininha, tu sabe
               quem é o incompetente que controla o tempo.

Faustina está apavorada. Mas, de repente, seu rosto se ilumina.

               FAUSTINA
               Eu sei quem controla o tempo, tio. E agora eu
               também sei quem é o diretor-presidente da
               companhia.

               DEMÓSTENES
               (apreensivo) Não sabe nada.     

               FAUSTINA
               Sei! Eu sei! E vou dizer o nome agora mesmo. (pega
               o celular e disca) Melhor ainda: vou ligar para os
               jornais e contar a minha descoberta.

               DEMÓSTENES
               (tentando parecer calmo) Tu tá blefando.  

               FAUSTINA
               De jeito nenhum. Alguém tem que estar por cima,
               mesmo que não apareça. Alguém construiu aquela
               companhia, e não foi tu, tio. Eu sei! (para o
               celular:) Alô? O editor-chefe, por favor. (para o
               tio:) Deve ser duro ser vice a vida inteira.

               DEMÓSTENES
               (furioso) Eu sou o verdadeiro chefe! Eu comando
               tudo. Em breve serei o diretor-presidente!

               FAUSTINA
               Nunca. (para o celular:) Alô? Aqui é Faustina
               Ferluci. Tenho uma grande notícia pra vocês.

               DEMÓSTENES
               (gritando) Chega! Faustina, o nosso contrato não
               pode ser anulado. Por ninguém! Mas podemos adiar a
               execução.

               FAUSTINA
               Então adia. Adia, ou eu conto quem é o teu
               superior.

               DEMÓSTENES
               (furioso) Nos veremos no futuro, querida sobrinha.

A aeronave dá um solavanco mais forte. Faustina grita e fecha os
olhos. Quando abre, o piloto está ao seu lado. Ele recupera a
consciência e retoma o controle do aparelho.

               PILOTO
               Vamos fazer um pouco forçado!  

Faustina faz o sinal da cruz. A aeronave trepida. Ouve-se um som
forte e grave.  

CENA 18 - QUARTO DE HOSPITAL - INT/DIA

O quarto é bonito e ensolarado. Uma TV, ligada, mas sem som, está
pendurada no teto. Faustina tem alguns esparadrapos espalhados
pelo rosto e está imobilizada. Ela está sendo visitada por SARA,
25 anos.

               SARA
               (incrédula) Que sonho maluco! E, no sonho, tu
               sabia mesmo o nome do presidente?

Faustina suspira, pensativa.

               FAUSTINA
               Na companhia, eu tentei de tudo para descobrir o
               nome do presidente. E não consegui. Na verdade,
               pensei que ele simplesmente não existia. Mas, de
               repente, eu... Naquela hora, no sonho, eu percebi
               que ele tinha que existir, e que era só eu abrir a
               boca e poderia pronunciar o seu nome. Aí o sonho
               terminou.

               SARA
               Que loucura! Parece coisa de filme de terror.

Faustina olha na direção da TV e sua atenção é despertada pelas
imagens.

               FAUSTINA
               Sara, aumenta o som da TV. Rápido.

Sara pega o controle e aperta um botão. As duas olham para a TV.
Na telinha, o tio Demóstenes, satisfeitíssimo, aperta a mão de
Bill Gates, que também está sorrindo.

               REPÓRTER (VS)
               ... neste acordo inédito entre uma empresa
               brasileira e a maior fabricante de software do
               mundo. Demóstenes Ferluci, vice-presidente,
               explica o que significa esse contrato
               multimilionário.

Demóstenes, com muitos microfones perto de sua boca.

               DEMÓSTENES
               Significa que a nossa empresa, que era pouco
               conhecida, agora pode ter um alcance muito maior.
               Com esse acordo, nosso tecnologia estará presente
               nos computadores de todo o planeta. (sorri, muito
               simpático) Resumindo: estamos prontos para dominar
               o mundo.

Um dos microfones sai de quadro.

               REPÓRTER (VS)
               E como o senhor explica uma transformação tão
               rápida?

O microfone volta.

               DEMÓSTENES
               São muitos fatores. Em primeiro lugar, ao nosso
               trabalho, que vem sendo desenvolvido há muito
               tempo. (sorri outra vez) Há séculos, como se diz.
               Mas não posso deixar de citar uma pessoa, que tem
               sido fundamental na companhia, e que recentemente
               sofreu um acidente, em pleno exercício de sua
               função. (Demóstenes olha para a câmara) Essa
               pessoa é nossa competentíssima Relações Públicas,
               Faustina Ferluci, que deve estar nos assistindo
               neste momento. Tina, querida, muito obrigado por
               tudo. Espero que te recuperes rapidamente. E
               lembra: nós temos um encontro marcado!

Faustina olha para a TV, horrorizada.

FIM

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(c) Carlos Gerbase, 2002
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br

20/07/2002

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