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FAUSTINA
episódio da série
CONTOS DE INVERNO 2002
argumento e roteiro de
Carlos Gerbase
coordenação de texto da série
Jorge Furtado
e Giba Assis Brasil
Versão 27/03/2002
produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
para RBS TV
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CENA 1 - RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA
FAUSTINA, 25 anos, uma garota bonita, mas de expressão muito
séria, vestida como se estivesse na década de 50 e sem qualquer
maquiagem - caminha por uma rua movimentada num belo dia de sol
(apesar do frio). Pára na frente de um edifício comercial, abre a
bolsa, pega uma agenda e abre numa página cheia de recortes de
anúncios classificados, colados com capricho. Consulta um dos
anúncios e guarda a agenda. Num gesto rápido, beija o
escapulário que usa no pescoço. Entra no edifício. Sai do
edifício, com expressão desanimada. Pega a agenda e dá uma
olhada.
CENA 2 - OUTRA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA
Faustina beija o escapulário e entra em outro edifício. Sai do
edifício, com expressão desanimada. Pega a agenda e dá uma
olhada.
CENA 3 - MAIS UMA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA
Faustina beija - três vezes - o escapulário e entra num terceiro
edifício. Sai do edifício, com expressão desanimada. Pega a
agenda e dá uma olhada.
FAUSTINA
(murmurando) Que inferno!
CENA 4 - UMA QUARTA RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA
Faustina, com ar cansado, mais desanimada que nunca, caminha com
a agenda na mão. Pára, arranca a folha dos classificados e a joga
no lixo. Neste momento, ouve um trovão forte. Ela olha para o céu
e estranha, pois o sol continua a brilhar. Novo trovão. Uma nuvem
escura aparece de repente. Toca o celular. Ela pára, na frente de
um edifício cujo número é 666, e ela atende.
FAUSTINA
Alô.
DEMÓSTENES
(OFF) Alô, Tina? Demóstenes.
FAUSTINA
Ôi, tio.
DEMÓSTENES
(OFF) A tua mãe me disse que tu tá procurando
emprego.
FAUSTINA
(contendo o entusiasmo) É... Quer dizer. Eu tive
várias propostas. Muitas propostas. Mas ainda não
me decidi.
DEMÓSTENES
(OFF) Tem uma vaga para Relações Públicas aqui na
companhia. Dá uma passada aqui.
FAUSTINA
Claro, tio. Eu passo, sim.
DEMÓSTENES
(OFF) Um beijo, Tina.
FAUSTINA
Um beijo, tio.
Faustina desliga o celular. Ouve-se um trovão muito forte. Começa
a chover. Faustina, surpresa, corre para se abrigar, mas está
muito feliz.
CENA 5 - SALA DE DEMÓSTENES - INT/DIA
A sala é ultra moderna, com móveis ousados e decoração high-tech,
mas não há um único computador à vista. Faustina está com um
figurino diferente do das cenas anteriores, mas este é igualmente
conservador e careta. DEMÓSTENES (50-60 anos) veste-se
elegantemente, com terno e gravata de corte impecável. Eles estão
sentados frente à frente, com a grande mesa de Demóstenes
separando-os. Vê-se uma placa sobre a mesa, onde está escrito:
"Demóstenes Ferluci. Vice-Presidente".
DEMÓSTENES
(sorridente) Eu quero que uma coisa fique bem
clara: não estou te contratando porque tu é minha
sobrinha. Eu tenho excelentes referências a teu
respeito.
Tina sorri, agradecida.
DEMÓSTENES
Eu sei que tu ainda não tem experiência
profissional, mas conheço bem o teu "curriculo-
vitae".
FAUSTINA
Tio, pode ter certeza, as minha intenções são as
melhores possíveis.
Demóstenes levanta-se e aproxima-se de Tina.
DEMÓSTENES
(melífluo, sedutor) Tina, querida, cuidado. Tu
deve saber que, de boas intenções, o inferno está
cheio.
Faustina, sorrindo, pega o escapulário e mostra ao tio.
FAUSTINA
Eu sei, mas eu tenho muita fé e...
Demóstenes imediatamente vira o rosto e afasta-se de Faustina.
Fala sem olhar para ela.
DEMÓSTENES
(cortando) A fé, sem dúvida, é uma coisa
extraordinária. Vamos visitar a firma?
CENA 6 - EMPRESA DE SOFTWARE - INT/DIA
Demóstenes mostra a empresa, que é formada, basicamente, por
GENTE NA FRENTE DE COMPUTADORES, trabalhando em cubículos. A
quantidade de cubículos é enorme (podemos multiplicá-los
digitalmente num plano aberto inicial). Eles vão passando pelos
cubículos e dando rápidas espiadas para dentro. O interior dos
cubículos, com exceção das pessoas, é exatamente o mesmo.
DEMÓSTENES
Aqui é o setor de Pesquisa e Desenvolvimento.
Dão mais alguns passos.
DEMÓSTENES
Aqui é a área de Integração de Sistemas.
Mais alguns passos.
DEMÓSTENES
E aqui fica o Departamento de Tecnologia.
FAUSTINA
Tio, posso fazer um pergunta?
DEMÓSTENES
Claro.
FAUSTINA
Quis são os principais produtos da firma?
DEMÓSTENES
Nós criamos soluções para plataformas multiuso,
programas para armazenamento de dados que fazem
ponte entre redes tradicionais e de fibra ótica e
ferramentas que aplicam processamento high-end em
sistemas que trabalham com pacotes, filtrando,
classificando e encriptando os dados de forma
segura.
FAUSTINA
(sem entender nada) Ah...
DEMÓSTENES
Desculpe se usei termos muito técnicos, Tina.
Resumindo: trabalhamos com tecnologia para dados e
com firewalls. Eu, pessoalmente, adoro firewalls.
Eu sonho com firewalls imensos, gigantescos. (vai
ficando entusiasmado) Firewalls infinitos, que
subam aos céus e acabem de uma vez por todas
com... (ele se dá conta da própria excitação)
Desculpe, Tina. Eu sempre me emociono quando falo
dos meus sonhos.
FAUSTINA
Deve ser ótimo trabalhar com tanto entusiasmo.
DEMÓSTENES
(já mais calmo) É mesmo. E olha que eu estou nessa
há séculos. Tina, querida, vamos conhecer a tua
sala?
CENA 7 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA
Demóstenes e Faustina entram numa sala agradável, decorada com
bom gosto. Sobre a mesa, ao lado de um computador de última
geração, um vaso com flores. JOSIARA - 20 anos, garota bonita,
provocante e cheia de vida - está de pé, simpática e sorridente,
com um bloco de anotações na mão. A roupa de Josiara, pródiga em
decotes, e sua maquiagem, de tons fortes, contrastam com a
caretice de Faustina.
DEMÓSTENES
(apontando para Josiara) Essa é a Josiara. Ela vai
ser tua secretária. Fala muitas línguas. Tantas
que nem vale a pena contar.
As duas garotas apertam as mãos.
FAUSTINA
Prazer, Faustina.
JOSIARA
O prazer é meu.
DEMÓSTENES
Agora eu vou pedir licença, porque vocês têm muita
coisa pra conversar. (para Tina) Se precisar de
alguma coisa, vem falar comigo.
FAUSTINA
Claro, tio. Muito obrigada por tudo.
DEMÓSTENES
Nada de "obrigado, tio". Aqui se faz, (aponta
rapidamente para o chão) logo ali se paga. Eu
tenho certeza que não vou me arrepender da minha
escolha.
Demóstenes sai da sala. Faustina senta em sua mesa e faz sinal
para que Josiara sente numa cadeira à sua frente.
FAUSTINA
Tu trabalha há tempo na companhia?
JOSIARA
Muito tempo. Muito mesmo.
FAUSTINA
Que bom. Assim vai ficar bem mais fácil.
Faustina abre um documento em branco no processador de textos do
computador e escreve "NOME DA EMPRESA:"
FAUSTINA
Em primeiro lugar, qual é o nome da empresa?
JOSIARA
Como assim?
FAUSTINA
O nome, a razão social da firma.
JOSIARA
É que são vários.
FAUSTINA
Claro, eu entendo. É uma holding. Qual é a empresa
líder?
JOSIARA
Como assim?
FAUSTINA
Qual é o nome da empresa que lidera o
conglomerado?
JOSIARA
Isso é questão de ponto de vista. Recentemente as
administrações da Ferluci S.A. ("Ferlucinet") e da
Ferlucitel Participações S.A. em cumprimento ao
disposto nas Instruções CVM no. 319/02, submeteram
à apreciação e deliberação dos seus acionistas os
termos, condições e justificativas de uma
reestruturação societária e operacional envolvendo
a Ferlucinet e sua controladora Ferlucitel, que é
100% controlada pela Tanassa Participações Ltda.
("Tanassapar"), que por sua vez é 100% controlada
pela Ferluci Participações S.A. ("Ferlucipar"),
através da qual a Ferlucinet incorporará o
patrimônio da Ferlucitel, que será extinta na data
de sua incorporação à Ferlucinet, sendo que
algumas etapas preparatórias para esta
reestruturação já foram realizadas.
FAUSTINA
Vamos simplificar: quando os clientes ligam pra
cá, o que a telefonista diz quando atende?
JOSIARA
Não sei. Nunca trabalhei perto da telefonista.
FAUSTINA
(impaciente) Tudo bem. Quando te perguntam onde tu
trabalha, o que tu responde?
JOSIARA
(sorridente) Não respondo. É preciso tomar muito
cuidado para não ferir suscetibilidades neste
ramo.
Faustina respira fundo e lança um sorriso condescendente para
Josiara.
FAUSTINA
Tudo bem. Vamos deixar o nome da empresa pra
depois.
Volta a teclar. Em baixo da linha já digitada, escreve: "Direto
residente:". Na linha seguinte, começa escrever: "Vice-presid..."
FAUSTINA
(teclando) Eu já sei o nome do vice-presidente,
Demóstenes Ferluci. O nome do presidente é...
JOSIARA
É...
FAUSTINA
É...
JOSIARA
A senhora não vai dizer?
FAUSTINA
Não. Eu ainda não sei. Tô esperando tu dizer.
JOSIARA
O nome do presidente?
FAUSTINA
Não vem me dizer que são vários!
JOSIARA
Claro que não. Só há um presidente.
FAUSTINA
Que se chama...
JOSIARA
Todo mundo chama ele de... presidente.
Faustina levanta, impaciente.
FAUSTINA
Olha, Josiara. Eu garanto que toda empresa tem
razão social e todo presidente tem nome.
JOSIARA
Eu sei.
FAUSTINA
O Demóstenes me disse que havia uma outra RP
trabalhando na companhia antes da minha
contratação. Tu trabalhava com ela?
JOSIARA
Não. Ela tinha a sua própria secretária. As duas
ficaram doentes juntas.
FAUSTINA
Mas aposto que elas sabiam o nome da firma e o
nome do presidente.
JOSIARA
(confusa) A senhora quer apostar comigo?
FAUSTINA
Claro que não! Eu só quero entender como eu vou
fazer um trabalho de Relações Públicas se eu não
tenho a menor idéia do que a empresa produz, não
sei a razão social, nem o nome do diretor-
presidente.
JOSIARA
Deve ser difícil mesmo.
FAUSTINA
(perdendo definitivamente a paciência) Não
perguntei a tua opinião!
JOSIARA
(humilde e submissa) Desculpa.
Faustina olha para Josiara, que está com os olhos no chão, e
respira fundo mais uma vez.
FAUSTINA
Eu é que peço desculpas. Josiara, eu estou um
pouco estressada. Quem sabe a gente continua a
nossa conversa mais tarde? Eu vou examinar alguns
documentos e tentar descobrir algumas coisas no
computador. Por falar nisso, tu sabe se eu tenho
alguma senha para entrar na rede administrativa?
JOSIARA
(feliz, vitoriosa) Isso eu sei! A senha da senhora
é meia, meia, meia.
FAUSTINA
Meia, meia, meia?
JOSIARA
Exatamente. Eu sei porque é igual à minha.
FAUSTINA
As nossas senhas são iguais?
JOSIARA
São. Eu também achava estranho, mas aí alguém me
explicou: elas tem que ser iguais por causa do
tipo de firewall.
FAUSTINA
Claro. Entendi.
JOSIARA
Eu estou logo ali, na ante-sala. Qualquer coisa, a
senhora me chama.
Josiara vai e fecha a porta. Faustina senta no computador, acessa
a rede e, ao ser solicitada a digitar a senha, escreve "666" e dá
enter.
CENA 8 - EMPRESA DE SOFTWARE/SALA DE FAUSTINA - INT/DIA
Seqüência de montagem. Trilha. Faustina com diversas roupas
diferentes (mas sempre conservadoras), fala com Josiara, percorre
a empresa, entra nos cubículos e conversa com FUNCIONÁRIOS (os
mesmos que aparecerem nos cubículos), consulta arquivos, toma
notas, mexe no seu computador, vai bisbilhotar salas mais
afastadas da empresa etc.
Finalmente entra em sua sala, com Josiara nos seus calcanhares.
Faustina senta, exausta.
FAUSTINA
Vamos ter que desmarcar a festinha de
confraternização.
JOSIARA
Por quê?
FAUSTINA
O Departamento de Tecnologia inteiro vai fazer
hora-extra no sábado. Não podemos fazer uma
confraternização sem um departamento inteiro.
JOSIARA
Por que não?
FAUSTINA
Má política de relações públicas. Eles podem se
sentir discriminados.
JOSIARA
Então fazemos domingo.
FAUSTINA
Domingo não seria festa, seria castigo.
Conseguimos localizar algum exemplar daquele
jornalzinho da companhia que saiu no ano passado?
JOSIARA
Claro.
Faustina fica agradavelmente espantada.
FAUSTINA
Onde está?
JOSIARA
Aqui mesmo.
Josiara vai até uma estante, pega um jornalzinho - bem bacana, a
cores, papel couchê - e o estende para Faustina, que
imediatamente começa a folheá-lo. São apenas oito páginas, com
fotos de Diógenes e de funcionários nos seus cubículos
FAUSTINA
(lendo baixinho) Direção prevê crescimento
recorde. Nova política de RH será implantada em
dezembro. Exportações de software ajudam na
balança comercial brasileira. Não é possível! Não
tem foto do diretor-presidente! Não tem o nome da
empresa! Não tem o nome de nenhum cliente! Pra mim
chega!
Faustina sai da sala, quase correndo. Josiara fica preocupada.
JOSIARA
Calma, Dona Faustina! Calma!
CENA 9 - SALA DE DEMÓSTENES - INT/DIA
Faustina, transtornada, invade a sala de Demóstenes, que está
fumando um charuto, com toda a tranqüilidade do mundo.
FAUSTINA
Tio, eu não agüento mais.
DEMÓSTENES
O que foi, Tina?
FAUSTINA
Se eu ficar mais um dia sem produzir nada de útil,
enlouqueço. Eu sei o que fazer para essa empresa
ter maior visibilidade, para melhorar as relações
internas, para crescer no conceito dos nossos
clientes.
DEMÓSTENES
Ótimo! É isso que estamos precisando.
FAUSTINA
Mas eu não consigo executar nada! Absolutamente
nada!
DEMÓSTENES
Então tem alguma coisa errada, minha filha.
FAUSTINA
Muito errada. Por exemplo: o senhor pode me dizer,
agora, qual é o nome dessa empresa?
DEMÓSTENES
É que...
FAUSTINA
É que são muitos, já sei. Então uma pergunta mais
fácil: como se chama o nosso patrão, o big-boss, o
diretor-presidente?
DEMÓSTENES
(sorrindo) Isso não é problema. O patrão sou eu.
Quem é que te contratou? Quem é que está sempre
aqui? Sou eu: Demóstenes Ferluci.
FAUSTINA
Eu não posso usar o nome do vice-presidente sem
citar o presidente. É contra todas as normas.
DEMÓSTENES
Ele é um velho idiota, que não manda nada. Mais
dia, menos dia, ele vai ser definitivamente
afastado da firma. Esse cargo de diretor-
presidente é... (pensa um pouco) Honorífico. Não
precisamos desse inútil para nada. Ele tem mania
de grandeza, mas na verdade é a mais ridícula das
criaturas.
FAUSTINA
Então, por favor, me diz o nome de um cliente, um
só cliente, da nossa empresa. Aí eu terei um
endereço para mandar uma mala-direta. Eu sonho
todas as noite em mandar uma mala-direta. (quase
gritando) Pelo amor de Deus, tio!
Demóstenes, pela primeira vez, sente-se atingido pelas
reclamações de Tina. Levanta e aproxima-se dela.
DEMÓSTENES
Calma, Tina. Não vamos baixar o nível. Nós temos
muitos clientes. Quem não está envolvido com as
grandes redes de informação? Ninguém? Todos são
nossos clientes em potencial.
FAUSTINA
Mas eu não posso mandar uma mala-direta para toda
a humanidade.
DEMÓSTENES
Claro que não. Nós temos que selecionar.
Demóstenes ajoelha-se na frente da sobrinha e paternalmente pega
suas mãos.
DEMÓSTENES
Eu já esperava que esse momento fosse chegar. Até
pensei que chegaria antes. Mas, tudo bem, chegou a
hora. Eu sei de algumas coisas que tu não sabe
sobre Relações Públicas. E eu sei, não porque sou
vice-presidente, mas porque sou velho.
FAUSTINA
Tu nem é tão velho, tio.
DEMÓSTENES
Sou. Eu já comi o pão que eu mesmo amassei. Tina,
querida, eu sei do teu esforço. Mas... Às vezes,
fazer tudo pela cartilha não é a melhor opção. Eu
sempre dizia isso para o teu finado pai.
FAUSTINA
Eu nem ligo mais pra cartilha, tio. Ela não me
ajudou em nada.
Demóstenes levanta, vai para as costas de Faustina e faz uma
massagem em suas costas.
DEMÓSTENES
Em primeiro lugar, vamos relaxar. E vamos lembrar
de algumas verdades básicas da vida. Tina, com
todo o respeito, tu deve saber que tu é uma garota
muito bonita.
FAUSTINA
(frágil, sincera) A beleza também nunca me ajudou
em nada.
DEMÓSTENES
Mas deveria. Toda mulher bonita tem uma arma
poderosa em suas mãos. Eu diria que tu, minha
querida, tem um verdadeiro arsenal.
FAUSTINA
Eu não estou entendendo.
DEMÓSTENES
Há milhares de anos, quando a primeira mulher teve
que fazer o primeiro trabalho de relações públicas
da história, que estava relacionado com a imagem
de um certa fruta, ainda pouco conhecida, ela usou
a mais poderosa das armas femininas.
Demóstenes interrompe a massagem, puxa uma cadeira e senta bem na
frente de Tina.
DEMÓSTENES
E deu certo.
FAUSTINA
Que arma é essa?
DEMÓSTENES
A sedução.
FAUSTINA
Mas eu não sou sedutora.
DEMÓSTENES
Relações-públicas sem sedução é como sorvete sem
açúcar, como bolo de aniversário sem velinhas,
como homem sem pecado. Tina, tu tem certeza,
certeza absoluta, que quer alcança o sucesso na
vida profissional?
FAUSTINA
Tenho.
DEMÓSTENES
Então é bem simples, querida. Eu vou te explicar
tudinho, como se vestir, como se maquiar, para que
os clientes olhem para você como um diabético olha
para um pudim de leite condensado. Eu diria que
chegou a hora de fazer um ótimo negócio: (pausa
dramática exagerada) vender a tua alma para o
diabo.
Faustina olha para Demóstenes, surpresa.
CENA 10 - RUA DE PORTO ALEGRE - EXT/DIA
Faustina, vestida com a caretice de sempre, está na rua,
estendendo uma maçã para um BANDO DE EMPRESÁRIOS, de terno e
gravata, que passam direto, sem olhar para ela.
O brilho de um raio, associado ao ribombar de um trovão, faz a
passagem para a próxima imagem.
CENA 11 - PARAÍSO - EXT/DIA
Faustina, em local paradisíaco, ao abrigo de uma grande árvore, é
uma Eva pós-moderna, vestida com ousadia e muito maquiada,
oferecendo todo tipo de fruta (a última é um melancia imensa)
para os empresários, que se lambuzam completamente ao comer e
depois beijam seus pés.
CENA 12 - APTO. DE FAUSTINA - INT/DIA
Faustina acorda, assustada, já de manhã. Toma banho, coloca suas
roupas de sempre e se olha no espelho do banheiro. De repente,
arranca o escapulário do pescoço.
CENA 13 - EMPRESA DE SOFTWARE - INT/DIA
Faustina caminha entre os cubículos. Ela está radicalmente
transformada: vestido sensual, maquiagem, saltos altos e um
sorriso sedutor. Por onde passa, arranca olhares de desejo e
admiração.
CENA 14 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA
Faustina, em sua mesa, fala com Josiara, que vai anotando tudo no
seu caderninho:
FAUSTINA
Vamos marcar algumas visitas: jornais, TVs,
rádios. E também em algumas empresas. Diz que
temos uma proposta irrecusável a fazer. Se te
perguntarem qual é, diz que não sabe. Eu também
não sei. Na hora eu resolvo.
Faustina levanta e caminha enquanto fala:
FAUSTINA
Vamos organizar uma festa-surpresa para o tio.
Quero o melhor serviço de bufê da cidade, que
vamos colocar como despesas culturais. E os
brindes! Não podemos esquecer os brindes: esquece
aquele negócio de calendário e agenda. (pensa um
pouco) Vamos fazer um brinde bem diferente.
Faustina chega bem perto de Josiara e fala em voz mais baixa:
FAUSTINA
Sexta tem um coquetel na Fiergs. Os figurões vão
estar todos lá. Não recebemos convite, mas eu
tenho que ir nesse coquetel. Dá um jeito de
conseguir o convite. Se for preciso, suborna
alguém. Tá entendido?
JOSIARA
(bem feliz e entusiasmada) Perfeitamente. É só
isso, Tina?
FAUSTINA
Só. Vou sair pra comprar um vestido pra essa
coquetel.
Faustina olha para Josiara.
FAUSTINA
Ou melhor, NÓS vamos sair. Esse teu decote já saiu
da moda faz séculos.
CENA 15 - CENÁRIO DE PROGRAMA DE ENTREVISTAS NA TV - INT/DIA
Faustina é entrevistada por APRSENTADOR(A) de TV.
APRESENTADOR(A)
Nossa convidada de hoje é uma jovem profissional
de relações-públicas que fez uma verdadeira
revolução numa empresa gaúcha de programas para
computadores: Faustina Ferluci. Acho que todos
vocês já devem conhecer a Faustina, de tanto que
ela apareceu nas colunas sociais, nas páginas de
economia, nas revistas de gente famosa. Tudo bom,
Faustina?
FAUSTINA
(sorridente) Tudo.
APRESENTADOR(A)
A Faustina não aparece na mídia por vaidade. De
jeito nenhum. Ela tinha uma missão a cumprir. E
quem vai falar sobre essa missão é o empresário
Demóstenes Ferluci. Esse é o seu depoimento, que
gravamos esta manhã:
Entra a imagem de Demóstenes no monitor do estúdio.
DEMÓSTENES
A Faustina, em curtíssimo espaço de tempo,
conseguiu transformar a imagem da nossa empresa,
que hoje é conhecida em todo o país e no exterior.
Ela é uma profissional excepcional, que...
CENA 16 - SALA DE FAUSTINA - INT/DIA
A mão de Faustina desliga a TV. Ela e Josiara estão na frente do
aparelho.
JOSIARA
Por quê desligou?
FAUSTINA
Porque não podemos perder tempo. Agora é o momento
de consolidar a imagem da companhia. E sabe o que
tá faltando? Alguma coisa concreta, uma prova de
que essa empresa não é virtual, que ela gera
empregos, que é sólida e tem futuro. Isso não se
conquista com textos. Precisamos de um comercial
para a TV com imagens da companhia.
JOSIARA
Já sei! Vamos mostrar nosso pessoal trabalhando
nos computadores.
FAUSTINA
Naqueles cubículos? De jeito nenhum. Precisamos de
algo grande, de algo realmente cinematográfico!
JOSIARA
Será que isso não é muito caro?
FAUSTINA
(sorrindo) Depende.
CENA 17 - HELICÓPTERO OU TECO-TECO - EXT/DIA
(Observação: vamos filmar com a aeronave no chão. Precisaremos de
dois ventiladores industriais, dos grandes)
Faustina está com uma câmara DV em punho, gravando as imagens
enquanto o helicóptero/teco-teco cruza os céus. Além dela, apenas
o PILOTO está na aeronave..
FAUSTINA
Dá mais uma volta no prédio, por favor.
De repente, começa a nevar (se a neve não entrar na cena 4).
FAUSTINA
Que lindo! Eu nunca tinha visto neve. Mas não é
perigoso?
PILOTO - Não sei. Eu nunca voei com neve.
FAUSTINA
As imagens vão ficar lindas!
Faustina se concentra na câmara. O piloto leva a mão ao peito,
geme baixinho e desmaia, como se tivesse um enfarte. O aparelho
começa a perder altura. Faustina vira-se e grita:
FAUSTINA
O que aconteceu?
Em vez do piloto, é Demóstenes que está sentado no assento ao
lado de Faustina. Ele está tranqüilo e sorridente. Não segura o
manche. A aeronave está caindo.
FAUSTINA
Tio? Cadê o piloto?
DEMÓSTENES
Já foi.
FAUSTINA
Tu sabe pilotar?
DEMÓSTENES
Eu sei tudo.
FAUSTINA
Então segura esse negócio, pelo amor de Deus!
DEMÓSTENES
(com cara de nojo) De jeito nenhum.
FAUSTINA
(apavorada) Tio, o que tu tá fazendo?
DEMÓSTENES
Estou cobrando uma dívida, querida.
FAUSTINA
Que dívida?
DEMÓSTENES
A tua. Lembra do nosso acordo? A tua alma me
pertence. Por enquanto, ainda está presa no teu
corpo, mas, considerando nossa atual situação, não
vai demorar muito para que esteja livre.
FAUSTINA
Eu não vendi minha alma!
DEMÓSTENES
Claro que vendeu, Tina. Ou tu acha que virou a
melhor Relações Públicas da Terra só porque
arrancou o escapulário do pescoço e passou a usar
batom?
FAUSTINA
(horrorizada) Mas eu não tive tempo para fazer
tudo o que queria! Pensa na companhia!
DEMÓSTENES
Acho que a Josiara vai dar conta do recado.
Querida sobrinha, trato é trato.
FAUSTINA
Mas eu fui enganada! Que história é essa de neve
em Porto Alegre? Justo quando eu tava voando! Foi
tu quem mandou a neve!
DEMÓSTENES
(rindo) Eu? Tu conhece bem a firma. Não temos esse
departamento por lá. Desde pequenininha, tu sabe
quem é o incompetente que controla o tempo.
Faustina está apavorada. Mas, de repente, seu rosto se ilumina.
FAUSTINA
Eu sei quem controla o tempo, tio. E agora eu
também sei quem é o diretor-presidente da
companhia.
DEMÓSTENES
(apreensivo) Não sabe nada.
FAUSTINA
Sei! Eu sei! E vou dizer o nome agora mesmo. (pega
o celular e disca) Melhor ainda: vou ligar para os
jornais e contar a minha descoberta.
DEMÓSTENES
(tentando parecer calmo) Tu tá blefando.
FAUSTINA
De jeito nenhum. Alguém tem que estar por cima,
mesmo que não apareça. Alguém construiu aquela
companhia, e não foi tu, tio. Eu sei! (para o
celular:) Alô? O editor-chefe, por favor. (para o
tio:) Deve ser duro ser vice a vida inteira.
DEMÓSTENES
(furioso) Eu sou o verdadeiro chefe! Eu comando
tudo. Em breve serei o diretor-presidente!
FAUSTINA
Nunca. (para o celular:) Alô? Aqui é Faustina
Ferluci. Tenho uma grande notícia pra vocês.
DEMÓSTENES
(gritando) Chega! Faustina, o nosso contrato não
pode ser anulado. Por ninguém! Mas podemos adiar a
execução.
FAUSTINA
Então adia. Adia, ou eu conto quem é o teu
superior.
DEMÓSTENES
(furioso) Nos veremos no futuro, querida sobrinha.
A aeronave dá um solavanco mais forte. Faustina grita e fecha os
olhos. Quando abre, o piloto está ao seu lado. Ele recupera a
consciência e retoma o controle do aparelho.
PILOTO
Vamos fazer um pouco forçado!
Faustina faz o sinal da cruz. A aeronave trepida. Ouve-se um som
forte e grave.
CENA 18 - QUARTO DE HOSPITAL - INT/DIA
O quarto é bonito e ensolarado. Uma TV, ligada, mas sem som, está
pendurada no teto. Faustina tem alguns esparadrapos espalhados
pelo rosto e está imobilizada. Ela está sendo visitada por SARA,
25 anos.
SARA
(incrédula) Que sonho maluco! E, no sonho, tu
sabia mesmo o nome do presidente?
Faustina suspira, pensativa.
FAUSTINA
Na companhia, eu tentei de tudo para descobrir o
nome do presidente. E não consegui. Na verdade,
pensei que ele simplesmente não existia. Mas, de
repente, eu... Naquela hora, no sonho, eu percebi
que ele tinha que existir, e que era só eu abrir a
boca e poderia pronunciar o seu nome. Aí o sonho
terminou.
SARA
Que loucura! Parece coisa de filme de terror.
Faustina olha na direção da TV e sua atenção é despertada pelas
imagens.
FAUSTINA
Sara, aumenta o som da TV. Rápido.
Sara pega o controle e aperta um botão. As duas olham para a TV.
Na telinha, o tio Demóstenes, satisfeitíssimo, aperta a mão de
Bill Gates, que também está sorrindo.
REPÓRTER (VS)
... neste acordo inédito entre uma empresa
brasileira e a maior fabricante de software do
mundo. Demóstenes Ferluci, vice-presidente,
explica o que significa esse contrato
multimilionário.
Demóstenes, com muitos microfones perto de sua boca.
DEMÓSTENES
Significa que a nossa empresa, que era pouco
conhecida, agora pode ter um alcance muito maior.
Com esse acordo, nosso tecnologia estará presente
nos computadores de todo o planeta. (sorri, muito
simpático) Resumindo: estamos prontos para dominar
o mundo.
Um dos microfones sai de quadro.
REPÓRTER (VS)
E como o senhor explica uma transformação tão
rápida?
O microfone volta.
DEMÓSTENES
São muitos fatores. Em primeiro lugar, ao nosso
trabalho, que vem sendo desenvolvido há muito
tempo. (sorri outra vez) Há séculos, como se diz.
Mas não posso deixar de citar uma pessoa, que tem
sido fundamental na companhia, e que recentemente
sofreu um acidente, em pleno exercício de sua
função. (Demóstenes olha para a câmara) Essa
pessoa é nossa competentíssima Relações Públicas,
Faustina Ferluci, que deve estar nos assistindo
neste momento. Tina, querida, muito obrigado por
tudo. Espero que te recuperes rapidamente. E
lembra: nós temos um encontro marcado!
Faustina olha para a TV, horrorizada.
FIM
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(c) Carlos Gerbase, 2002
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br
20/07/2002
| Anexo | Tamanho |
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| faustina.txt | 35.76 KB |