O AMANTE AMADOR

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               O AMANTE AMADOR
               episódio da série
               CONTOS DE INVERNO

               roteiro de Carlos Gerbase
               versão 4 - 14/05/2001

               produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
               para RBS TV

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CENA 0 - CRÉDITOS INICIAIS - ESTÚDIO

Seqüência de imagens de alguns personagens do programa: Ewerardo,
Mariela e as garotas ficcionais.

CENA 1 - CASA DE EWERARDO/SALA - INTERIOR/DIA

(créditos iniciais superpostos)

Apartamento de classe média, com decoração discreta. É um almoço
dominical, sem luxos, mas farto. EWERARDO, 40 anos, está na
cabeceira, abrindo um vinho nacional. MARIELA, 35 anos, traz a
comida da cozinha, distribuindo as travessas de metal sobre mesa.
CARINE, 12 anos, e ROMEU, 8 anos, enchem seus pratos.

               EWERARDO (VS)
               Tu sabe como eu gosto da minha vida. Tudo certo.
               Tudo em ordem. Cada coisa em seu lugar. Minha
               família é tudo pra mim.

               TOMÁS (VS)
               Mas tem uma hora que enche o saco, eu sei como é.

               EWERARDO (VS)
               Não, não sabe. Eu nunca vou encher o saco. A mesa
               servida, todo mundo comendo...

               TOMÁS (VS)
               Sei. O patriarca, sua bela esposa, seus filhos.
               Todos na santa paz de Deus.

CENA 2 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo, de camisa social e gravata (terno no espaldar da
cadeira), conversa com TOMÁS, 40 anos. Estão numa mesa pequena,
de canto, sobre a qual vemos três cervejas vazias. É um bar
classe-média, de decoração despojada.

               EWERARDO
               Não bota Deus na história!

               TOMÁS
               Tudo bem. Mas então não bota família na história.
               Esquece a família.

               EWERARDO
               Impossível! Minha família é...

               TOMÁS
               Pára! Te concentra um pouco no xis da questão.

Ewerardo toma um gole largo de cerveja e olha para Tomás.

               EWERARDO
               Vou tentar.

CENA 3 - ESCRITÓRIO DE ENGENHARIA - INTERIOR/DIA

Ewerardo caminha pelo corredor de um escritório. Passa por
algumas portas abertas, distribuindo sorrisos e cumprimentos.

               EWERARDO (VS)
               Tu sabe como eu gosto do escritório...

               TOMÁS (VS)
               Sei. Tudo certo. Tudo em ordem. Cada coisa em seu
               lugar. A mesma chatice de casa.

Ewerardo chega a uma sala ampla, dividida em dois ou três
ambientes de trabalho. SETE PESSOAS estão em atividade, falando
ao telefone, escrevendo no computador, revisando plantas de
obras, etc. Uma dessas pessoas é RAFAELA, 20 anos, que está
mascando chiclete e arrumando o conteúdo de uma gaveta. Sua mesa
abriga uma pequena central telefônica. Rafaela olha para Ewerardo
e sorri. Ewerardo sorri de volta, meio constrangido.

               EWERARDO (VS)
               Eu sempre tive uma sensação de segurança absoluta
               no escritório. Eu sempre achei que ali eu não
               corria perigo.

               TOMÁS (VS)
               Não enrola, Ewerardo. Desembucha de uma vez!

               EWERARDO (VS)
               Eu não sei o que ela viu em mim.

Rafaela larga o que estava fazendo, pega um bloquinho de
anotações e aproxima-se de Ewerardo, ainda muito sorridente.

               TOMÁS (VS)
               Quem viu, Ewerardo?

               EWERARDO (VS)
               Rafaela. Nossa nova telefonista.

Rafaela pára na frente de Ewerardo, um pouco simpática demais
para uma funcionária.

               RAFAELA
               Eu tenho um milhão de recados para o senhor.

               EWERARDO
               Certo. Na minha sala, por favor.

Ewerardo caminha na direção de sua sala, seguido por Rafaela.

               TOMÁS (VS)
               Dá a ficha.

               EWERARDO (VS)
               Que ficha? Ela é telefonista, mas não usa ficha.

               TOMÁS (VS)
               A ficha da moça, Ewerardo. Idade, tipo físico, cor
               dos cabelos, essas coisas. Ela é gostosa?

CENA 4 - ESCRITÓRIO/SALA DE EWERARDO - INTERIOR/DIA

Ewerardo senta em sua mesa. Rafaela começa a ler os recados.

               EWERARDO (VS)
               Ela é bonita... Muito bonita...

CENA 5 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo e Tomás na mesa.

               EWERARDO
               Mas é jovem demais.

Tomás sorri.

               TOMÁS
               Isso não existe. (pensa um pouco) Quer dizer...
               tem mais de doze?

CENA 6 - ESCRITÓRIO/SALA DE EWERARDO - INTERIOR/DIA

Rafaela termina de ler os recados.

               RAFAELA
               E a dona Henriqueta que falar com o senhor,
               urgente.

               TOMÁS (VS)
               Quem é a dona Henriqueta?

A porta ao fundo abre e HENRIQUETA, 40 anos, bem vestida, entra.

               EWERARDO (VS)
               Minha sócia.

Henriqueta, inamistosa, fala com Rafaela.

               HENRIQUETA
               Pode sair, minha filha.

Rafaela sai. Henriqueta sorri para Ewerardo, também muito
simpática. Simpática demais.

               HENRIQUETA
               Reservei uma mesa para as nove.

               EWERARDO
               Mas eu disse ontem que não podia!

               HENRIQUETA
               Não. Disse que seria difícil, que tinha combinado
               não sei o que com a Mariela. Tá resolvido. Eu
               liguei pra ela e disse que tínhamos um jantar com
               um cliente novo, que quer construir um edifício de
               quarenta andares. (pausa, olha nos olhos de
               Ewerardo) Tu não escapa. Hoje é a nossa noite...

CENA 7 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo e Tomás na mesa.

               TOMÁS
               Entendi. Tua sócia também tá a fim. Que beleza,
               Ewerardo! Quem me dera... Como é a coroa?

               EWERARDO
               Bonita. (aproxima-se mais de Tomás e fala em voz
               baixa, já meio bêbado) Eu vou te contar uma
               coisa... Olha, confio em ti. (hesita) Eu já fui
               apaixonado pela Henriqueta, ele era minha colega
               na faculdade. Eu sofria por ela. E ela nunca me
               deu bola.

               TOMÁS
               Então... Agora te cobra. Tu foi no jantar?

               EWERARDO
               Não. Menti que o meu filho tinha ficado doente,
               com febre alta, e que a Mariela estava viajando.

               TOMÁS
               Perfeito. Aposto que ela ficou ainda mais a fim. E
               agora... Ela tá na boca da caçapa. Imagina...
               Primeiro a sócia, balzaquiana, amor antigo,
               reprimido, que agora explode como um vulcão.
               Depois a telefonista, uma gatinha, quase uma
               criança... Que beleza!

               EWERARDO
               Não.

               TOMÁS
               Não o quê?

               EWERARDO
               Não posso. Quer dizer... Não quero.

               TOMÁS
               Não pode, ou não quer?

               EWERARDO
               Não quero... Quer dizer, não posso. (muito
               desanimado) Não sei!

Tomás pede alguma coisa para o garçom. Bota a mão no ombro de
Ewerardo.

               TOMÁS
               Ewerardo, amigo velho, eu sei exatamente porque tu
               me chamou aqui, nesse bar, e me contou essas
               coisas todas.

Ewerardo olha para ele, ansioso.

               TOMÁS
               Tu tá a fim das duas, mas não sabe como fazer.

               EWERARDO
               É um pouco isso... Ignorância, falta de costume
               nessas coisas... Mas tem uma coisa pior: a
               Mariela.

               TOMÁS
               Lá vem a família de novo! Se o teu negócio é
               culpa, medo do pecado, procura um padre.

               EWERARDO
               Não. É que eu tenho certeza que ela vai descobrir,
               que eu não vou saber fazer direito, que vai ser um
               inferno...

               TOMÁS
               Bobagem. São quinze de casamento, e tu nunca pulou
               a cerca. A Mariela confia em ti cegamente.
               Cegamente, entendeu? É só ela continuar cega. E a
               gente ainda bota uma vendinha, só de segurança.

               EWERARDO
               Eu não tenho coragem. Sou um covarde, Tomás. Tu
               sabe, tu me conhece. Eu nunca vou conseguir.

               TOMÁS
               Digamos que tu nunca foi exatamente um Don Juan,
               mas... (sorri e seus olhos começam a brilhar) Tive
               uma idéia.

O garçom traz um copo pequeno e enche o copo com uísque.

               TOMÁS
               Toma aí. Quero ver se pelo menos isso tu é capaz
               de fazer.

Ewerardo começa a tomar.

               TOMÁS
               Isso. Que nem macho!

Ewerardo termina. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Ewerardo
pede mais uma dose.

               TOMÁS
               Sabe quando tu quer comprar um carro bacana, caro,
               desses importados? Mas tá em dúvida, porque... É
               muito caro, e o carro pode não ser exatamente o
               carro que tu quer. Pode ser grande demais, ou
               pequeno demais.

CENA 8 - REVENDA DE CARROS IMPORTADOS - INTERIOR/DIA

A VENDEDORA, 25 anos, faz Ewerardo entrar dentro do carrão
importado e entrega a chave.

               TOMÁS (VS)
               Aí sabe o que a vendedora faz, se o cliente é um
               cidadão exemplar, como tu? Ela diz: fica com o
               carro por uns dias, uma semana. Anda com ele,
               experimenta. Sem compromisso. Tu não comprou.

CENA 9 - AVENIDA - EXTERIOR/DIA

Ewerardo, todo contente, dirige o carrão na avenida Goethe.

               TOMÁS (VS)
               O carro tem seguro total, dá pra destruir ele
               contra uma árvore que não tem problema. Mas tu tá
               ali, dirigindo o carrão, gozando a vida. Aí,
               depois de uma semana, não gostou, acha que não
               vale a pena, que é caro demais...

Ewerardo, macambúzio, dirige um carro nacional.

               TOMÁS
               ...devolve o carro e fica com o antigão mesmo.

CENA 10 - BAR - INTERIOR/NOITE

               TOMÁS
               Anda igual, não anda?

Ewerardo está confuso.

               EWERARDO
               Mas eu não quero comprar um carro.

               TOMÁS
               Ô, pamonha. Eu tô falando de mulher, de adultério.
               Tu vai fazer um test-drive de traição.

Chega a nova dose de Ewerardo. Ele vai bebê-la, mas Tomás o
detém.

               TOMÁS
               Pára de beber! Tô falando sério. É genial. Tu vai
               vencer esse teu medo, Ewerardo. E sem pagar
               psiquiatra. Tu vai penetrar no mundo excitante da
               sacanagem e da mentira, mas com absoluta
               segurança, sem compromisso, sem riscos. Seguro
               total, meu amigo!

               EWERARDO
               Acho que tu bebeu demais.

               TOMÁS
               Antes da balzaquiana ardente e da ninfeta
               proibida, tu vai conhecer... a... a... Míriam.

               EWERARDO
               Que Míriam?

               TOMÁS
               Essa aí, do teu lado.

Ewerardo olha para o lado e, onde antes estava uma cadeira vazia,
está MÍRIAM, 23 anos, loira, linda. Míriam olha para Ewerardo,
muito sedutora.

               TOMÁS (VS)
               Míriam é loira, tem 23 anos. É estudante de
               Psicologia, atriz e modelo e está com vontade de
               passar um fim de semana contigo em Quintão.

               EWERARDO
               (sorrindo) Loira? Ela nem é loira. Olha ali a
               raiz, pretinha...

               TOMÁS
               Não gostou da Míriam? Que tal a Valquíria?

Ewerardo olha para o lado e vê VALQUÍRIA, uma outra loira
insinuante, esta de 18 anos, que veste-se com certa vulgaridade e
masca chicletes.

               TOMÁS (VS)
               Valquíria também é loira e tem 18 anos. Trabalha
               como representante de vendas de lingerie e é
               acompanhante de executivos de sucesso. Diz que é
               universitária, claro.

               EWERARDO
               Não é um pouco vulgar?

               TOMÁS
               Ah, claro. Tu gosta de mulheres de classe. Então,
               é a Carolina.

               CAROLINA, 20 anos, bem vestida, maquiada como se
               estivesse numa festa, pega o copo de Ewerardo e
               bebe.

               TOMÁS (VS)
               Carolina tem 20 anos e é descendente de Dom Pedro
               II. O pai e mãe não saem de casa há 10 anos, para
               não se misturarem com o populacho. Mas ela é
               rebelde, comprou um apartamento e prefere homens
               mais velhos.

               EWERARDO
               Gostei dela.

               TOMÁS
               Podemos tentar outras. A Josiane, por exemplo.

JOSIANE, 25 anos, sorri para Ewerardo.

               EWERARDO
               Não! Eu quero a Carolina de volta.

               TOMÁS
               Tudo bem.

Carolina volta, mas com as roupas vulgares de Valquíria. Ewerardo
estranha.

               TOMÁS
               Eu dou um jeito.

Valquíria aparece, com as roupas de Carolina.

               TOMÁS
               Esse negócio é complicado.

Alguns uns morphs e outros efeitos de edição bagaceiros,
apresentando mais algumas garotas sorridentes e insinuantes.
Ewerardo olha para os lados, constrangido.

               TOMÁS
               Tudo bem, vamos nos concentrar só na Carolina.

Carolina volta para a mesa, vestida como em sua primeira
aparição, mas com os cabelos louros falsos de Míriam. Ewerardo
não fica satisfeito.

               TOMÁS
               O cabelo não importa, ela não existe. Nenhuma
               delas existe.

Míriam e Valquíria também aparecem na mesa.

               TOMÁS
               Mas, a partir desse momento, elas são tuas
               amantes. As três. E eu vou te dizer exatamente o
               que fazer quando chegar em casa. Presta atenção!

CENA 11 - AP. EWERARDO/ELEVADOR/CORREDOR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo, num elevador que sobe, pega um vidrinho de perfume
vagabundo no bolso e o examina. O elevador pára e a porta abre.
Míriam está à sua frente, sorridente e sedutora.

FIM DO PRIMEIRO BLOCO

CENA 11A - AP. EWERARDO/CORREDOR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo, ainda com o vidrinho de perfume na mão, em dúvida, não
sai do elevador. Míriam entra no elevador, encosta-se em
Ewerardo, abraça-o, acaricia seu rosto. Ewerardo não se entrega.
Míriam puxa Ewerardo para fora do elevador.

Ewerardo sai do elevador sozinho, ainda com o vidrinho de perfume
na mão. Olha para a porta do apartamento. Respira fundo. Abre a
tampa do perfume. Cheira. Acha ruim. Vai até a lixeira, como quem
vai jogar fora o vidrinho. No último instante, a mão de Míriam o
impede. Míriam, sempre sorridente, pega o vidrinho, molha a ponta
do dedo e passa perfume no colarinho da camisa de Ewerardo.

Míriam desaparece. Ewerardo, resignado, passa mais um pouco no
rosto e na nuca. Respira fundo outra vez. Joga o vidrinho no
lixo. Abre a porta do apartamento e entra, receoso.

CENA 12 - AP. EWERARDO/QUARTO DE CASAL - INTERIOR/NOITE

O quarto está na penumbra. Ewerardo entra, de pijama, e deita no
lado vazio da cama. Mariela está dormindo. Ewerardo acende a luz
de cabeceira e se ajeita, meio atabalhoado, mas Mariela continua
dormindo. Ewerardo tira e bota o lençol, muda o travesseiro de
lado. Mariela continua dormindo. Ewerardo levanta pega um sapato
ao lado da cama e o deixa cair, fazendo um barulhão. Mariela
acorda, sonâmbula, e olha para Ewerardo.

               MARIELA
               O que foi, amor?

               EWERARDO
               Nada. Cheguei agora.

Mariela consulta o despertador, na mesa de cabeceira: três horas.

               MARIELA
               Que tarde...

               EWERARDO
               Muito trabalho.

Mariela sorri.

               MARIELA
               Eu sei como é. Cliente novo. Quarenta andares.

Mariela beija Ewerardo.

               MARIELA
               A Henriqueta me falou. Dorme bem, querido.

Mariela sente o perfume e estranha.

               MARIELA
               Tu trocou de desodorante, amor?

               EWERARDO
               Não.

Mariela cheira Ewerardo e sorri.

               MARIELA
               Esse perfume não é da Henriqueta.

               EWERARDO
               (inseguro) Esse cliente tem uma namorada, Míriam,
               acho. Mulher vulgar. Falsa loira. Deve usar litros
               desse perfume horrível.

               MARIELA
               (sempre sorridente) Deve ter sido uma noite e
               tanto. Boa noite, amor. (deita, mas logo olha para
               Ewerardo outra vez, carinhosa) Dorme mais um pouco
               amanhã. Eu vou de táxi, ligo pro escritório e dou
               uma desculpa qualquer.

               EWERARDO
               (mais inseguro) Não. Não posso. Eu te levo,
               normal.

               MARIELA
               Tu é muito caxias, Ewerardo. Mas eu te amo.

Mariela deita e dorme. Ewerardo fica se cheirando, indignado.

CENA 13 - AP. EWERARDO/BANHEIRO - INTERIOR/DIA

Ewerardo, já de terno, fala ao celular, perto do box. O chuveiro
está ligado.

               EWERARDO
               (em voz baixa) Não sei se vou conseguir. (...)
               Deu... Deu certo, Tomás. Ela até ajudou, falou da
               Henriqueta, do cliente. Mas essa história do baton
               no carro... É demais. Ela vai me matar. (...) Não!
               Não vou fazer.

Batidas na porta.

               EWERARDO
               Depois a gente se fala.

Ewerardo desliga o celular, pega um batom no bolso do terno e
joga pela janela.

Abre a porta. Mariela entra e coloca pasta de dente na escova.

               MARIELA
               Por quê o chuveiro tá ligado?

Ewerardo desliga o chuveiro, molhando-se um pouco.

               EWERARDO
               Esqueci.

               MARIELA
               Cada dia mais pateta!

CENA 14 - GARAGEM - INTERIOR/DIA

Ewerardo e Mariela aproximam-se do carro. Ewerardo leva um susto:
Carolina está sentada no carro, passando baton. Termina de
passar, olha sensualmente para Ewerardo e coloca o baton sobre o
vidro dianteiro, preso no limpador.

Ewerardo e Mariela chegam no carro. Carolina desapareceu. Mariela
pega o batom, examina-o e mostra-o para Ewerardo.

               MARIELA
               Importado. Muito chique. Aposto que é da
               Henriqueta.

Ewerardo pensa por um momento.

               EWERARDO
               Mas não é. É da Carolina, a sócia do nosso
               cliente. Deve ter caído no chão, no estacionamento
               do restaurante, quando ela saiu do carro, e o
               manobrista botou ali. Na volta, como tava escuro,
               a gente não viu. (pega o celular) Vou ligar pro
               Dr. Rubens avisando.

               MARIELA
               (séria) Não, Ewerardo! Não!

Ewerardo olha para Mariela, apavorado, esperando o pior. Mariela
abre o sorriso.

Entrando no carro.

               MARIELA
               Não conta que a gente achou o baton. Adorei a cor.

Mariela pega um espelho na bolsa e passa o batom.

               MARIELA
               Uma mentirinha não faz mal, faz?

CENA 15 - CARRO/RUA - EXTERIOR/DIA

Frente de um colégio. Mariela beija Ewerardo e sai do carro.
Assim que ela entra, Ewerardo pega o celular.

               EWERARDO
               Eu te mato! (...) Enlouqueceu, Tomás? (...) E como
               tu entrou na garagem? (...) Muito esperto. Eu
               quase me ferrei. A desculpa era para um batom no
               banco do carro, e não no pára-brisa! (...) Eu
               inventei... Ela deixou cair no chão, aí um
               manobrista pegou... (...) Parabéns coisa nenhuma!
               Eu quase tive um ataque do coração! Não, acho que
               ela não desconfiou. Ela confia em mim. Confia
               mesmo, e eu tô me sentindo péssimo. (...) Chega!
               Acabou! (...) Que Carolina coisa nenhuma. (...) Eu
               não imagino nada. Nada! Vai pro inferno!

Ewerardo desliga o celular. Ao seu lado, Carolina, com o mesmo
vestido decotado, sorri para Ewerardo.

               CAROLINA
               Achou meu batom? Onde a gente vai? O seu
               apartamento, ou o meu?

CENA 16 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo e Tomás conversam.

               TOMÁS
               Viu? Eu não te disse? É moleza.

               EWERARDO
               Moleza pra ti, que fica inventando. Eu tenho que
               ir lá, mentir, enganar, fazer de conta.

Ewerardo bebe um longo gole do copo de uísque.

               TOMÁS
               E a Valquíria?

Valquíria aparece na mesa do bar, abraçada em Ewerardo, com ar
apaixonado.

               EWERARDO
               Não quero nada com a Valquíria.

               TOMÁS
               Mas a Valquíria vai ser tua última prova. Chega de
               perfumezinho, batonzinho... Se tu passar incólume
               pela Valquíria, te dou o diploma de amante
               profissional e não se fala mais nisso.

               EWERARDO
               Promete?

               TOMÁS
               Prometo. Tu acaba de levar a Valquíria num motel.
               E claro que fez tudo errado.

CENA 17 - BANHEIRO DE MOTEL - INTERIOR/DIA

Ewerardo tira nervosamente a camisa e entra na jacuzzi cheia de
espuma. Sorri, meio tímido, para Valquíria, que já está na
banheira, nua (mas debaixo da espuma) rindo da atrapalhação de
Ewerardo.

               TOMÁS (VS)
               Primeiro, entrou na banheira de cueca.

CENA 18 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo está indignado.

               EWERARDO
               Tá pensando que eu sou idiota? Eu nunca faria uma
               bobagem dessas.

Tomás abre sua pasta 007 e pega um saquinho de plástico
transparente (desses de super-mercado), com uma cueca molhada
dentro.

               TOMÁS
               Faria. Claro que faria.

Tomás estende o saquinho para Ewerardo.

               TOMÁS
               Cuidado que tá molhado. Coloca dentro da tua
               pasta.

               EWERARDO
               (convicto) Não.

               TOMÁS
               É a tua última prova, meu amigo. Depois tu tá
               livre pra levar a vida como quiser. Ou será que a
               coroa e a telefonista já desistiram?

CENA 19 - ESCRITÓRIO - INTERIOR/DIA

Olhar insinuante de Henriqueta para Ewerardo. Olhar insinuante de
Rafaela para Ewerardo.

CENA 20 - BAR - INTERIOR/NOITE

               EWERARDO
               Não.

               TOMÁS
               Enquanto tu não for homem aqui, no faz-de-conta,
               como vai ser homem na vida real? Pega logo isso
               aqui.

Ewerardo hesita um pouco, mas pega o saquinho e coloca na pasta.
Vai fechá-la, mas Tomás segura seu braço.

               TOMÁS
               Não fecha. Pega teu talão de cheques.

Ewerardo olha para Tomás, confuso.

CENA 21 - SAÍDA DE MOTEL - INTERIOR/DIA

O carro de Ewerardo, com o próprio e Valquíria em seu interior,
está na porta de saída do motel. A atendente mostra a conta:
noventa reais. Ewerardo olha a carteira e vê que tem apenas três
notas de dez reais.

               TOMÁS (VS)
               Preenche aí: noventa reais.

               EWERARDO (VS)
               Não!

               TOMÁS (VS)
               Preenche logo. Quem entra na banheira de cueca
               também paga motel com cheque.

Ewerardo pega o talão e começa a preenchê-lo.

CENA 22 - BAR - INTERIOR/NOITE

Ewerardo está preenchendo o talão.

               EWERARDO
               (irônico) Não vai querer que eu coloque no
               canhoto: Motel Delícia?

               TOMÁS
               Não. Um amante amador como tu faria coisa pior.
               Coloca o dia de hoje... Muito bem. Agora escreve
               aí, sei lá... Livraria Andradas.

Ewerardo escreve no canhoto.

               TOMÁS
               Agora me dá o cheque.

Ewerardo destaca o cheque e entrega-o para Tomás.

CENA 23 - SAÍDA DE MOTEL - INTERIOR/DIA

Ewerardo entrega o cheque para a atendente e arranca com o carro,
meio confuso.

               EWERARDO (VS)
               O que eu fiz de errado?

CENA 24 - BAR - INTERIOR/NOITE

Tomás guarda o cheque de Ewerardo.

               EWERARDO
               Eu costumo comprar mesmo na Livraria Andradas. A
               Mariela sabe disso. É uma desculpa perfeita.

               TOMÁS
               Sabe duma coisa, meu amigo? A gente se ferra por
               fazer as coisas certas, e não as coisas erradas.
               Pior ainda: a gente se ferra porque é bom. E tu é
               um cara muito bom. Lembra disso.

               EWERARDO
               Tudo bem.

Uma garotinha de cara suja e ar muito triste aproxima-se da mesa
dos dois, vendendo aquelas rosas "para namorados".

               GAROTINHA
               (para Ewerardo) Moço, compra uma rosa.

               TOMÁS
               Obrigado. Nós não queremos.

               GAROTINHA
               (ainda mais triste) É só pra me ajudar. O moço não
               tem namorada? Ela vai gostar.

               EWERARDO
               Quanto é?

               GAROTINHA
               Dois reais.

Ewerardo abre a pasta, pega a carteira e paga garotinha, que vai
embora. Tomás ergue a mão e "assina" no ar, pedindo a conta.
Ewerardo vai colocar a rosa dentro da pasta, mas Tomás o detém.

               TOMÁS
               (sorrindo) Quem vai ganhar? A sócia, ou a
               telefonista?

Ewerardo examina a rosa.

               EWERARDO
               E tu acha que eu teria coragem de dar uma flor? É
               a maior bandeira da face da terra.

               TOMÁS
               Tá ficando esperto... Mas tu comprou por pena da
               garotinha, né? Tu é um cara bom, Ewerardo. Tão bom
               que vai pagar a nossa conta.

O garçom chega com a conta. Ewerardo coloca a rosa sobre a mesa e
pega o talão de cheques. Abre o talão. De repente, Tomás olha por
cima do ombro de Ewerardo e fica muito assustado.

               TOMÁS
               Agora, fica calmo.

               EWERARDO
               Por quê?

Mariela está bem atrás de Ewerardo.

               MARIELA
               Que coincidência! Posso me sentar?

Ewerardo vira-se e olha para Mariela.

FIM DO SEGUNDO BLOCO

CENA 25 - BAR - INTERIOR/NOITE

Mariela beija o marido e senta ao seu lado, sorridente. A pasta
de Ewerardo está aberta, sobre a mesa, com o saquinho de plástico
bem visível. A rosa ao seu lado. O talão à sua frente.

               MARIELA
               Ôi, Tomás. (para Ewerardo) Para quem é a flor?

               SÍLVIA: EWERARDO
               É...

               TOMÁS
               É pra ti, Mariela.

               MARIELA
               Duvido. Ele nunca me deu uma flor em quinze anos
               de casamento. (sorri) Deve ser para alguma amante.

               EWERARDO
               Eu comprei porque fiquei com pena da garotinha.

               MARIELA
               Que garotinha?

               TOMÁS
               Tinha uma garotinha aqui, agora mesmo, com a cara
               bem triste, vendendo essas rosas.

Mariela olha em volta.

               MARIELA
               Não tô vendo garotinha nenhuma.

Mariela fica muito séria e olha para Ewerardo.

               MARIELA
               Para quem tu comprou essa rosa?

               EWERARDO
               (nervoso) Pra ninguém, Mariela. Olha, eu já estava
               pagando a conta. Vamos pra casa?

Mariela olha para o talão de Ewerardo.

               MARIELA
               Livraria Andradas?

               EWERARDO
               (sem se abalar) Chegaram aqueles livros que eu
               tinha encomendado.

               MARIELA
               Sei. Engenharia Vencedora e Reengenharia da
               Engenharia.

Mariela pega um pacote na bolsa e rasga o papel. São os dois
livros, mais um pequeninho, de contos.

               MARIELA
               Passei na livraria agora mesmo. O Gutierrez me
               falou dos livros e eu peguei eles pra ti.

               EWERARDO
               (mantendo o sangue-frio) Eu devo ter passado
               depois... Foi há pouco. O Gutierrez não estava. O
               outro atendente não sabia que tu tinha passado lá.
               Aí eu comprei de novo. Amanhã eu resolvo.

Mariela olha para a sacola de plástico na pasta de Ewerardo.

               MARIELA
               Aquilo ali são os livros?

Ewerardo entra em pânico.

               EWERARDO
               Não! Deixei os livros no escritório.

Mariela estende a mão e pega a sacola, num movimento rápido.

               EWERARDO
               Mariela, eu posso explicar tudo.

Mariela tira a cueca molhada da sacola. Olha para Ewerardo,
furiosa.

               EWERARDO
               Tudo bem. Acabou. Me ouve, com calma. O cheque não
               foi pros livros. O cheque é uma brincadeira. E
               essa cueca nem é minha. Foi o Tompás que trouxe.
               Foi tudo invenção do Tomás. (olha para Tomás)
               Tomás, me dá o cheque.

               TOMÁS
               Que cheque?

Ewerardo olha para Tomás, estupefacto. Mariela olha para a cueca.

               MARIELA
               (para Ewerardo) A cueca é tua, Ewerardo. Fui eu
               que te dei, no Natal. Eu quero o divórcio.

Ewerardo olha para a cueca, ainda mais estupefacto.

CENA 26 - BANHEIRO DO MOTEL - INTERIOR/DIA

Mariela e Tomás estão na jacuzi do motel, tomando champanhe.

               MARIELA
               Gênio.

               TOMÁS
               Não...

               MARIELA
               Tu é um gênio, Tomás. E eu te amo.

               TOMÁS
               Digamos que a gente soube conduzir bem a situação
               e aproveitar as fragilidades do adversário.

               MARIELA
               E essas mulheres que tu inventou? Que imaginação!
               Eu praticamente posso vê-las... Míriam, Valquíria,
               Carolina...

Míriam, Valquíria, Carolina aparecem dentro da jacuzi,
sorridentes.

               TOMÁS
               Digamos que eu sou um ficcionista amador.

               MARIELA
               Eu não agüentava mais ficar te encontrando
               escondido, vindo em motel. Hoje é a nossa
               despedida de motel. O Ewerardo disse que vai
               assinar o acordo: eu fico com o apartamento e a
               casa na praia.

               TOMÁS
               E ele fica com quê?

               MARIELA
               Ele fica com dor de barriga.

Tomás sorri. Batidas na porta.

               TOMÁS
               Que estranho...

Tomás aparece na porta, de roupão.

               TOMÁS
               O que é?

               RAFAELA (OFF)
               Sinto muito, senhor. Mas temos um alarme de
               incêndio.

               TOMÁS
               (nervoso) Mariela, vamos embora, rápido.

CENA 27 - SAÍDA DE MOTEL - INTERIOR/DIA

Um carro com Tomás e Mariela no banco da frente, mais as três
garotas ficcionais atrás, sai rapidamente do motel.

CENA 28 - BANHEIRO DO MOTEL - INTERIOR/DIA

Rafaela entra no banheiro, vai até uma luminária e tira dali um
pequeno gravador.

CENA 29 - OUTRO BANHEIRO DO MOTEL - INTERIOR/DIA

Ewerardo e Henriqueta já estão na jacuzi. Rafaela entra no
banheiro, mostra o gravador para os dois e faz sinal de OK.
Rafaela entra na banheira. Os três brindam com champanhe.

               HENRIQUETA
               Achei uma maldade esse negócio de incêndio. Não
               precisava.

               RAFAELA
               Eu vi eles correndo, coitados.

               EWERARDO
               Eles merecem. Bota a fita pra gente, Rafaela.

               MARIELA (VS)
               E essas mulheres que tu inventou? Que imaginação!
               Eu praticamente posso vê-las... Míriam, Valquíria,
               Carolina...

               TOMÁS (VS)
               Digamos que eu sou um ficcionista amador.

Ewerardo sorri e desliga o gravador.

               EWERARDO
               Totalmente amador.

               HENRIQUETA
               Só me diz uma coisa, Ewerardo. Como tu teve
               certeza que era uma armação pra cima de ti?

               EWERARDO
               Pela cueca. Eu vi que a Mariela estava falando a
               verdade, que a cueca era mesmo minha. Ela tinha
               uma mancha que eu lembrava bem. E só ela podia ter
               dado a cueca para o Tomás. Eles tinham que estar
               juntos na sacanagem.

               RAFAELA
               Mas por quê eles não usaram uma cueca qualquer?

               EWERARDO
               Aí não seria minha. Não valeria como prova de que
               eu fui a um motel. O roteiro da ficção deles tinha
               um erro de estrutura, que eles não perceberam.
               Estavam se divertindo tanto com a trama, com a
               minha desgraça, que se acharam onipotentes, que
               podiam fazer qualquer coisa. O poder inebria as
               pessoas.

               HENRIQUETA
               Então... Eles usaram uma prova contra ti que, ao
               ser mostrada, virou uma prova contra eles.

               EWERARDO
               Exatamente.

               RAFAELA
               Moral da história?

               EWERARDO
               Pior que um amante amador, só um roteirista
               amador. E pior que um roteirista amador, só
               senador da República. Quem vai esfregar minhas
               costas hoje?

FIM

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(c) Carlos Gerbase, 2001
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br

21/07/2001

AnexoTamanho
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