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O COMPRADOR DE FAZENDAS
episódio da série
BRAVA GENTE
original de Monteiro Lobato
adaptação de Carlos Gerbase
e Jorge Furtado
oitavo tratamento (final) 21/03/2001
produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
para TV Globo
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CENA 1 - FAZENDA DO ESPIGÃO/PISCINA - EXTERIOR - DIA
(créditos iniciais superpostos)
Uma paisagem bonita: a casa da fazenda ao fundo, céu azul, nuvens
brancas, a piscina, duas roseiras em flor. Um bonito cavalo pasta
perto de uma pequena laranjeira carregada. Duas galinhas ciscam.
DAVI (OFF)
Não é uma beleza?
DAVI, 50 anos, de chapéu e roupas simples, e SALGADO, 30 anos,
vestindo roupas urbanas, estão parados na estrada. Salgado leva
um jornal dobrado em baixo do braço.
SALGADO
Bonito mesmo.
DAVI
O senhor não sabe o que é a lua cheia nascendo por
trás da casa...
SALGADO
Eu imagino. Mas eu preciso da fazenda pra plantar.
Qual é a produtividade por hectare?
DAVI
É enorme, doutor Salgado. Enorme.
SALGADO
O senhor produz o quê?
DAVI
De tudo. (aponta) Rosas. Laranjas. Galinhas.
Cavalos. A lua.
SALGADO
Mas o senhor planta o quê?
DAVI
Ah, o senhor quer saber da plantação?
SALGADO
Isso.
DAVI
É pra lá.
Davi põe a mão no ombro de Salgado, forçando-o a olhar para outro
lado. Davi aponta.
DAVI
O senhor está vendo aquela árvore seca lá adiante?
SALGADO
Onde?
Ao fundo, as duas roseiras saem correndo da paisagem.
DAVI
Lá onde está voando aquele quero-quero.
SALGADO
Qual?
Ao fundo, ISAURA, 45, e ZILDA, 18, entram em cena tentando, sem
fazer muito barulho, segurar as galinhas.
DAVI
O quero-quero macho.
SALGADO
Como o senhor sabe que é macho?
Isaura e Zilda saem de cena com as galinhas.
DAVI
Ah, isso é difícil de explicar assim para um
leigo. É mais pelo jeitão dele mesmo.
SALGADO
Seu Davi, eu não estou interessado em quero-quero,
nem macho, nem fêmea.
Ao fundo, Zilda e Isaura puxam um carrinho de mão onde está o
vaso com a laranjeira. O cavalo, que está amarrado na laranjeira,
também sai de cena.
SALGADO
(mostra o jornal) O senhor anunciou uma fazenda
com excelente produtividade, mas não especificou
qual a produtividade, nem o que o senhor planta.
Eu quero ver a sua plantação.
DAVI
Ah, o senhor quer ver a plantação?
SALGADO
Foi o que eu lhe disse desde o início. O senhor é
que resolveu me mostrar a piscina e... (faz menção
de virar-se, mas Davi o detém).
DAVI
A piscina o senhor já viu, não precisa ver de
novo. Eu vou lhe mostrar o que eu planto. Por
aqui, por favor.
CENA 2 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FUNDOS - EXTERIOR - DIA
Uma pequena horta perto dos fundos da casa. Duas galinhas ciscam.
Ao fundo, duas roseiras em flor. Um bonito cavalo pasta à sombra
de uma laranjeira carregada.
DAVI
Olha só. Não é uma beleza?
SALGADO
(impaciente) É.
DAVI
O senhor precisa ver o que é a lua nascendo por
trás da (casa).
SALGADO
Mas, afinal, de que lado nasce a lua?
DAVI
Isso varia muito. Ela é de lua. Ah, ah, ah...
SALGADO
(sério, quase grosseiro) Olha, seu Davi. Afinal,
onde está a plantação? Isso aqui é uma horta:
tomates, alface, duas roseiras, (estranhando) um
pé de laranja e um cavalo branco.
Pára. Olha para o cavalo.
SALGADO
Esse cavalo não é aquele?
DAVI
Aquele qual?
SALGADO
Aquele outro.
DAVI
Que outro?
SALGADO
O outro cavalo.
DAVI
Ah, não senhor, esse é outro.
SALGADO
Pois esse outro é igualzinho ao outro.
DAVI
É verdade. A gente até pensou em fazer uma mancha
para diferenciar os dois e acabar com essa
confusão.
SALGADO
Por favor, eu quero ver aquele outro cavalo.
DAVI
Para que? O senhor não disse que este é
igualzinho? Vê este!
SALGADO
Eu quero ver aquele.
Isaura sai de trás da laranjeira.
ISAURA
Primeiro, o senhor vai tomar um cafezinho.
DAVI
Isaura, minha esposa.
Isaura se posiciona de modo a forçar Salgado a olhar para o outro
lado.
SALGADO
Muito prazer.
Ao fundo, Zilda tira o cavalo da horta.
ISAURA
O prazer é todo meu. (pega uma garrafa térmica,
serve café) O café tá fresquinho. Açúcar?
SALGADO
Um pouquinho.
ISAURA
Quantas colheres?
Ao fundo, Zilda tira a laranjeira da horta.
ISAURA
O senhor quer que eu mexa, ou senhor mesmo gosta
de mexer?
Ao fundo, Zilda leva as galinhas.
SALGADO
(mais impaciente que nunca) Para mim é
indiferente.
ISAURA
Então vou mexer do meu jeito que, pelo menos
comigo, sempre dá certo.
DAVI
Isso é verdade. Quando a Isaura mexe um café, tá
mexido.
Ela mexe o açúcar com a colher de um jeito bastante peculiar e
lento.
SALGADO
Está bom assim. Obrigado.
Salgado pega a xícara e bebe de um gole.
SALGADO
Agora vamos ver aquele cavalo.
DAVI
Por aqui. (aponta para o lado) É um atalho.
CENA 3 - FAZENDA DO ESPIGÃO/PISCINA - EXTERIOR - DIA
Salgado, seguido de Davi e Isaura, chega suando na piscina, onde
já estão as galinhas, a laranjeira e o cavalo. Salgado olha para
o cavalo.
SALGADO
É igualzinho.
DAVI
Parece mesmo.
ISAURA
Cara de um, focinho de outro.
SALGADO
Onde estão as roseiras?
Zilda levanta de trás da laranjeira, levando as mãos à cabeça.
ZILDA
Me esqueci das roseiras.
CENA 4 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FACHADA - EXTERIOR - DIA
Salgado, furioso, é seguido por Davi até o seu carro. Isaura e
Zilda acompanham.
DAVI
Eu faço um desconto no preço da fazenda.
SALGADO
De graça, é caro.
DAVI
Dou a laranjeira de brinde. Pode levar agora
mesmo. Vendo os dois cavalos pelo preço de um.
SALGADO
Que dois cavalos? Só tem um.
DAVI
Então vendo um por preço de dois. É pegar ou
largar.
Salgado arranca com sua caminhonete, levantando uma grande nuvem
de poeira sobre a infeliz família Moreira de Souza, ainda reunida
na frente da fazenda. Os três olham, desesperançados, a
caminhonete afastando-se.
ISAURA
Acho que ele largou.
ZILDA
E se a gente baixar mais o preço?
DAVI
Se baixar mais, vou ter que pagar pra me livrar
dessa desgraça.
Os três olham para a casa.
ZILDA
Quanto? Talvez valha a pena.
DAVI
Não fala bobagem.
ZILDA
Todos que vêm aqui fogem correndo.
ISAURA
São uns idiotas, insensíveis, não reconhecem o
valor histórico da fazenda. Se este país fosse
sério esta casa seria tombada.
DAVI
Pra quê? Já está tombando sozinha.
ZILDA
Se, pelo menos, a casa não parecesse tão velha.
ISAURA
Antiga, Zilda. A casa não é velha. É antiga!
DAVI
Tá bom... (abraça a mulher) Vamos pra dentro,
minha antiga.
ISAURA
Antiga é a sua avó. Eu não tenho uma ruga.
Davi pára e aponta para a casa
DAVI
É isso!
ZILDA
Isso o quê?
DAVI
Não adianta enfeitar só a horta e a piscina. A
casa tá cheia de rugas. Temos que fazer uma
maquiagem, dar um pinturinha, cobrir as
rachaduras. O homem da imobiliária disse que o
outro interessado vem na segunda-feira. (olha para
as roupas das mulheres) E vocês precisam se
arrumar melhor.
ZILDA
Com que dinheiro, pai?
DAVI
As tintas, a gente compra fiado. E as roupas, dá-
se um jeito. Vamos começar de uma vez!
CENA 5 - FAZENDA DO ESPIGÃO/VÁRIOS LOCAIS - EXT/INT - DIA
Cena de montagem. Davi, Isaura e Zilda fazem uma operação de
guerra para disfarçar os problemas da casa. Davi lava paredes com
uma mangueira velha, furada, amarrada com arame; Zilda limpa a
mesa do jardim (que está coberta de fungos); Davi corta o
emaranhado de galhos da fachada; Isaura costura a forração de
sofá; Davi pinta as paredes externas e o portão; Isaura coloca
quadros em cima de todos os buracos e manchas nas paredes
internas; Davi coloca vinho de garrafão numa garrafa de vinho
importado; Isaura retira uma velha cortina da janela e
experimenta o tecido sobre o corpo de Zilda; Zilda cobre o sofá
com panos e colchas; Davi põe um tapete na escada escondendo os
buracos dos cupins. Uma maquiagem executada com muito esforço e
suor, mas evidentemente incapaz de resistir a um exame mais
sério.
CENA 6 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FACHADA - EXTERIOR - DIA
Fim de tarde. Os três apreciam o resultado do trabalho e começam
a recolher o material.
DAVI
Ficou uma beleza. Acho que vou até subir o preço.
ZILDA
Paizinho, querido... Se... Por um acaso... A gente
vender mesmo essa joça, o senhor me paga aquele...
(teatral) curso de interpretação para cinema e TV?
ISAURA
Tu sonha demais, minha filha.
DAVI
E vê novela demais.
Zilda olha para o pai, irritada.
ZILDA
Eu vou ser atriz! De cinema e TV.
DAVI
E eu vou ser pescador! De vara e carretilha.
ISAURA
Antes que vocês dois gastem tudo em bobagem, nós
vamos comprar uma casinha na cidade. Já andei
vendo os preços.
CENA 7 - FAZENDA DO ESPIGÃO/COZINHA - INTERIOR - NOITE
Numa mesa da cozinha, os três jantam. Isaura traz a comida de um
fogão a lenha.
ZILDA
Uma atriz de novela ganha milhões, pode comprar
muitas casas.
DAVI
O milho no pé, e já tá fervendo água pra
polenta... Primeiro nós temos que enrolar o
comprador.
ISAURA
Eu estou preparada. Fui até a venda.
Isaura abre um armário e traz para a mesa uma coleção de
"gulodices de hospedagem": um grande queijo colonial, biscoitos
variados, rapadura, duas lingüiças, uma garrafa de pinga "da
especial" e um pastelão de palmito. Davi e Zilda olham para tudo
aquilo, gulosos.
DAVI
Este pastelão é de quê?
ISAURA
Palmito.
ZILDA
(teatral) O moço não há de querer tudo.
DAVI
Olha! Ela já está falando que nem novela das seis.
ISAURA
(guarda tudo no armário) Se sobrar, a gente come.
Pra fazer vista tem que ficar inteiro.
ZILDA
(boceja) Espero que ele não venha muito cedo
amanhã.
ISAURA
Moço da cidade, deve acordar meio-dia.
CENA 8 - FAZENDA DO ESPIGÃO/PORTÃO - EXTERIOR - DIA
O primeiro sol da manhã ilumina a fachada da casa. Um táxi pára
no portão. Buzina.
montagem paralela com
CENA 9 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA - INTERIOR - DIA
Davi, Isaura e Zilda aparecem na sala, ainda com as roupas de
dormir. Isaura olha pela janela.
ISAURA
É ele!
ZILDA
Quem?
DAVI
O comprador.
Os três vão para a janela.
PEDRO TRANCOSO, 30 anos, terno e gravata, carregando uma pasta e
um tubo (estes de projeto arquitet"nicos) desce do táxi.
Ponto de vista deles. Pedro coloca a mão no portão, recém-
pintado, e, ao ver as mãos sujas de tinta, pragueja.
ZILDA
Bem apessoado. Bem vestido.
ISAURA
É moço.
DAVI
Tem jeito de quem tem muito dinheiro.
Pedro tenta empurrar o portão.
DAVI
Vamos ver se é forte.
O portão não abre. Pedro empurra com toda a força. O portão cede.
Pedro cai no chão.
ISAURA
É forte. Não deve ter nem trinta anos.
Pedro levanta-se, limpa a roupa, olha na direção da casa e sorri,
um sorriso luminoso, de quem está de bem com a vida. Os dentes
são perfeitos.
ZILDA
(derretendo-se) Ele é bonito! Tenho que me
arrumar!
Zilda sai correndo.
ISAURA
Eu também!
Isaura sai.
DAVI
Eu também.
Davi põe o pijama para dentro da calça e sai para receber o
comprador.
CENA 10 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FACHADA - EXTERIOR - DIA
Davi sai da casa, fechando a calça. Pedro estende a mão para
Davi.
PEDRO
Pedro Trancoso de Carvalhais Fagundes. Ao seu
inteiro dispor.
DAVI
Davi Moreira de Souza.
Pedro percebe a mão suja de tinta e recolhe o braço.
PEDRO
O portão foi pintado?
DAVI
Estes dias.
PEDRO
(decepcionado) Que pena.
DAVI
A casa inteira foi reformada.
PEDRO
Que desgraça!
DAVI
Desculpe, mas eu não estou entendendo.
PEDRO
Estou procurando uma fazenda em ruínas. Um velho
casarão decadente. Parecido com esse, mas sem a
tinta.
DAVI
Eu imagino como seria.
PEDRO
Tenho receio que essa pintura tenha alterado a
personalidade da casa.
DAVI
Quanto a isso, o senhor pode ficar tranqüilo.
Nisso aí nós não mexemos, não. Nem na
personalidade, nem no assoalho.
Vão caminhando na direção da casa.
PEDRO
Seu Davi, se este país fosse sério esta casa seria
tombada.
DAVI
É o que eu sempre digo.
PEDRO
Meu interesse na fazenda é cultural. Quanto mais
intocada, melhor e mais valiosa.
CENA 11 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE ESTAR - INTERIOR - DIA
Os dois entram na casa.
PEDRO
Eu quero uma casa tomada por cupins.
DAVI
(chuta um tapete que encobria um buraco de cupim)
Bem, procurando talvez o senhor ache algum por aí.
PEDRO
Paredes descascando, escadas em ruínas...
DAVI
(tira um quadro, revelando a parede rachada) Dá-se
um jeito.
Pedro caminha pela casa, examina a mobília.
PEDRO
Mobília capenga...
DAVI
(chuta o calço do pé da mesa) A gente encontra.
Pedro olha para o teto, vai até a janela.
PEDRO
Reboco caindo, vidraças sem vidro.
DAVI
Pagando bem eu lhe consigo tudo isso.
Pedro olha para os campos.
PEDRO
(recitando) "Os pastos ensapezados, formigantes de
carrapatos".
DAVI
Que bonito!
PEDRO
É do Monteiro Lobato.
DAVI
Não entendi, mas eu lhe arranjo.
Isaura entra na sala, muito arrumada, com roupas que parecem do
início do século.
DAVI
Minha esposa, Isaura.
PEDRO
Pedro Trancoso, encantado.
ISAURA
(apertam-se as mãos) Desculpe não recebê-lo na
porta, mas segunda é o dia de folga dos
empregados.
DAVI
Eu estou mostrando nossos trastes ao doutor.
ISAURA
O senhor não sabe como me dói vender esta casa.
Ainda mais agora, quando a fazenda vai tão bem.
DAVI
Exagero dela.
ISAURA
Os campos tratados, a casa como nova.
DAVI
É só aparência.
ISAURA
(Isaura traz o pastelão) Aceita um pastelão de
palmito?
DAVI
É de ontem. (para Isaura) O doutor Trancoso está
interessado na casa por motivos culturais. Disse
que, se este país fosse sério, esta casa seria
tombada.
ISAURA
Não me diga!
DAVI
Quem disse foi ele.
PEDRO
Um preciso de um velho casarão. Imponente, mas
decadente.
DAVI
Parecido com esse, mas sem a pintura. E ele quer
os campos carrapantes de formigas.
PEDRO
Formigantes de carrapatos.
DAVI
Isso. Quanto pior, melhor.
ISAURA
(sem entender nada) Ah... Entendi.
Zilda, muito bonita, com o vestido feito com o tecido da cortina,
entra na sala.
DAVI
Minha filha, Zilda.
PEDRO
(interessado) Muito prazer.
ZILDA
(cumprimentam-se) O prazer é meu.
PEDRO
(sem soltar a mão dela) Desculpe, mas eu faço
questão. O prazer é todo meu.
Davi separa a mão dos dois.
DAVI
Fica metade do prazer para cada um e não se fala
mais nisso.
PEDRO
Por acaso a senhorita é atriz?
ZILDA
Não. Por quê?
Pedro examina o rosto dela. Segura-a pelos ombros e a coloca em
outra posição, perto da janela.
PEDRO
(examina-a de alto a baixo) Deveria ser.
DAVI
O doutor Trancoso está procurando um velho casarão
decadente.
ZILDA
Para quê?
ISAURA
É, isso é uma pergunta muito boa. Para quê o
senhor quer a fazenda?
Pedro pega o tubo.
PEDRO
Deixa eu lhe mostrar o meu banner.
Davi se coloca entre Pedro e as duas mulheres.
DAVI
Seu Pedro, a família é humilde mas é decente.
PEDRO
Banner é um cartaz. O senhor já vai entender.
Pedro tira do tubo um banner onde se lê: Trancoso Produções
apresenta "O Comprador de Fazendas". Da obra de Monteiro Lobato.
Um casal se beija. Ao fundo, uma bela ilustração de uma fazenda.
DAVI
O que é isso?
PEDRO
Um filme. Mais uma super-produção do cinema
nacional.
ZILDA
(interessada) O senhor fez um filme?
PEDRO
Vou fazer. Se Deus quiser, aqui, nesta fazenda.
DAVI
Filme? E isso dá dinheiro?
PEDRO
Depende do projeto.
Pedro espalha sobre a mesa uma série de desenhos, story-board,
figurinos, cenários.
PEDRO
O comprador de fazendas é um conto de Monteiro
Lobato. É a história de uma família que disfarça
uma fazenda decadente para tentar vender para um
otário. Eu vou aceitar o pastelão.
DAVI
Interessante. Muito original.
Isaura corta o pastelão e serve num prato. Estende o prato para
Pedro.
PEDRO
Aí aparece um comprador interessado, passa o fim-
de-semana na fazenda, comendo do bom e do melhor e
vai embora. E a família descobre que ele é um
tremendo picareta.
Isaura afasta o prato da mão de Pedro.
ISAURA
(desconfiada) E aí?
PEDRO
Aí o picareta ganha na loteria e volta para
comprar a fazenda de verdade.
Davi tira o prato de Isaura e dá para Pedro.
DAVI
Sei. E depois?
PEDRO
A família, que não sabe do prêmio, expulsa o
comprador e perde a grande chance de vender a
fazenda.
DAVI
Que final triste.
PEDRO
Mas este final triste é só no conto. No meu
roteiro eles transformam a fazenda num hotel
temático e ganham muito dinheiro. Isso é
exatamente o que pretendo fazer na vida real.
DAVI
Que ótimo! O senhor não quer um queijo?
PEDRO
Aceito. O meu plano é filmar a primeira parte com
a fazenda em ruínas e depois reformar tudo.
Pedro abre na mesa um projeto arquitet"nico do Hotel Fazenda
Sétima Arte.
PEDRO
O público vai querer conhecer a fazenda onde o
filme foi feito. O hotel vai ser um sucesso. Sabe
quem fará o papel do comprador?
DAVI
Quem?
PEDRO
Ricardo André.
ZILDA
(impressionada) Ricardo André!
ISAURA
(emocionada) Não me diga! O Ricardo André aqui em
casa?
DAVI
Quem é Ricardo André?
ISAURA
(para Pedro) Desculpe a ignorância. (para Davi) O
Neco de "Alma em Chamas".
INSERT - Plano curto de novela (arquivo), com o ator que faz
Ricardo André.
ZILDA
O doutor Marcos de "A Ingrata".
INSERT - Plano curto de outra novela (arquivo), com o ator que
faz Ricardo André.
Davi continua boiando.
ISAURA
(irritada) Aquele do comercial da barata bêbada.
INSERT - Plano curto de Ricardo André usando um spray contra
baratas.
DAVI
Ah, sei.
PEDRO
Ele está interessadíssimo no projeto. Me pediu
para conhecer a locação.
DAVI
Que locação?
PEDRO
A casa. A fazenda.
Zilda aproxima-se de uma cortina que tem a mesma padronagem do
seu vestido. Isaura percebe e fica aflita.
ISAURA
Claro. A locação. Zilda, você não quer mostrar a
locação para o doutor Pedro?
ZILDA
Será um prazer.
DAVI
(para Pedro) Dá uma olhada na piscina. Aposto que
o senhor nunca viu tanto mosquito. Nem em
Hollywood o senhor encontra mosquito mais feroz
que os daqui.
ZILDA
(à parte, para a mãe) O vestido não tá curto
demais, mãe?
Isaura olha para as coxas da filha.
ISAURA
Tá. Ainda bem. Vai com tudo, minha filha (faz o
sinal da cruz) Que Deus nos perdoe.
CENA 12 - FAZENDA DO ESPIGÃO/JARDIM INTERNO - EXTERIOR - DIA
Zilda e Pedro caminham pelo jardim em ruínas.
PEDRO
Pelo visto, tudo aqui é natural, saudável... Eu
diria mais: tudo aqui parece ter um frescor...
(respira fundo) Sinto no ar um cheiro de mata
virgem.
ZILDA
(envergonhada) Mas também temos muita terra pronta
para ser semeada.
Pedro pega uma flor, murcha, de uma planta mal-cuidada.
ZILDA
(sem graça) Não tem quem cuide...
PEDRO
O ideal para o filme é um jardim sem plantas. É
muito simbólico.
ZILDA
Eu adoro filmes simbólicos. Nesse filme não tem
romance?
PEDRO
Claro que sim. A verdadeira motivação do comprador
é a filha do dono da fazenda, uma menina tímida do
interior. Ele se apaixona por ela à primeira
vista.
ZILDA
Que bonito. E eles acabam juntos?
PEDRO
Acabam.
ZILDA
E quem vai fazer a mocinha?
PEDRO
Ainda não sei. Vou fazer uns testes. Quem sabe
você aceita...
ZILDA
Eu? (teatral) Eu? Não, eu não poderia. Sou apenas
uma menina tímida do interior.
PEDRO
Mas é perfeita! Você precisa fazer um teste!
ZILDA
Imagine, fazer um filme com Ricardo André. Tem
cena de beijo?
PEDRO
Duas.
ZILDA
E como seria o teste?
PEDRO
Uma cena. Romântica. Você faz?
ZILDA
Vou pensar.
CENA 13 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA - INTERIOR - NOITE
Zilda e Pedro chegam. Davi e Isaura aproximam-se, ansiosos.
DAVI
E então? Gostou?
PEDRO
(olhando para Zilda) Muito.
ISAURA
Viram o campo?
ZILDA
Vimos, ele achou horrível, perfeito.
DAVI
O senhor precisa ver o pântano, é uma beleza, uma
desolação. Além dos carrapatos, nós temos umas
sangue-sugas bonitas aqui! Uns bichos gordos, bem
tratados...
PEDRO
Quem sabe amanhã.
DAVI
(surpreso) Amanhã?
PEDRO
Meu vôo é amanhã às duas da tarde. Já reservei um
quarto no hotel da cidade.
DAVI
Nem pensar. O senhor dorme aqui. Não temos luxo,
mas uma cama limpa e macia eu lhe garanto! Fique à
vontade.
PEDRO
Se o senhor insiste... Aproveito a noite para
fazer um pequeno teste com sua filha.
DAVI
Também não precisa ficar à vontade demais.
PEDRO
Um teste cinematográfico. Sua filha é perfeita
para o filme.
ISAURA
Então o senhor janta conosco. É comida simples.
PEDRO
Meu prato preferido.
DAVI
(para Isaura) Isaura, o aperitivo.
CENA 14 - FAZENDA DO ESPIGÃO/VARANDA - EXTERIOR - NOITE
Davi e Pedro tomam cachaça em pequenos copos. Pedro termina uma
dose.
PEDRO
Maravilhosa.
DAVI
Feita aqui, num alambique decadente. Então o
senhor está gostando?
PEDRO
Tanto que tenho receio do que pode acontecer
agora.
DAVI
Receio do quê?
PEDRO
De ouvir o preço. Eu sei que há coisas que não tem
preço, e que não podem ser compradas, por maior
que seja o desejo do comprador. (olha para Davi,
ainda muito sério). Qual é o preço?
Davi engole em seco e dispara.
DAVI
Seiscentos e cinqüenta!
PEDRO
(voltando a sorrir) Pois não é caro. Está bem mais
razoável do que imaginei.
Davi morde os lábios e tenta emendar.
DAVI
Seiscentos e cinqüenta, sim, mas... o cavalo fora.
PEDRO
É justo.
DAVI
...e fora também as galinhas.
PEDRO
Perfeitamente.
DAVI
E a mobília.
PEDRO
É natural. Para isso, teremos um cenógrafo.
Davi arremata.
DAVI
À vista!
PEDRO
Com toda certeza! (abre os braços) Davi, dá cá um
abraço!
CENA 15 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE JANTAR - INTERIOR - NOITE
Os quatro terminam de jantar.
ISAURA
(serve água de uma moringa) O senhor vai
experimentar a água do nosso poço.
Pedro toma a água, cerimoniosamente. Toma todo copo, aperta os
lábios, passa a ponta da língua sobre eles.
PEDRO
Na cidade, dona Isaura, uma água assim, pura,
cristalina, vale o melhor dos vinhos. Felizes os
que podem bebê-la!
Zilda e Isaura também tomam um pouco de água, saboreando-a com
certo exagero.
PEDRO
(examina a moringa) E esta moringa? Simples,
singela, perfeita.
DAVI
Está até rachada.
Pedro cruza os talheres, afasta o prato.
PEDRO
Que delícia! (para Isaura) A senhora poderia abrir
um restaurante!
ISAURA
Bondade sua.
PEDRO
Se a senhora abre um bolicho com essa comida
campeira, em São Paulo ou Paris... (para Davi) Mas
não quero lhe roubar a esposa...
Pedro olha para Zilda.
PEDRO
Já a filha... Mas ela já deve ter mil
pretendentes.
Zilda enrubesce.
ISAURA
Aqui fora, só aparece gente grossa.
ZILDA
Aceita um licor?
PEDRO
Não, obrigado, álcool depois das refeições me dá
cefalalgia. E ainda temos trabalho hoje. Decorou
as falas?
ZILDA
Acho que sim.
PEDRO
Então vamos. Prefiro fazer o teste ao ar livre.
CENA 16 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA - INTERIOR - NOITE
Isaura e Davi folheiam um dicionário.
DAVI
Sefardim, sefardita, sega. Não é com "s".
ISAURA
Vê com "c".
Davi encontra "cefalalgia" e lê.
DAVI
Aqui, cefalalgia. Dor de cabeça. Ora! Uma coisa
tão simples!
ISAURA
E você acha que um homem desses vai ter uma
simples dor de cabeça?
CENA 17 - FAZENDA DO ESPIGÃO/JARDIM INTERNO - EXTERIOR - NOITE
Estrelas no céu, grilos, sapos, trilha romântica.
PEDRO
Esse cri-cri dos grilos, é encantador!
ZILDA
Mas é muito triste. Prefiro o canto estridente das
cigarras, fazendo melodias em plena luz.
PEDRO
(pausa, olha Zilda no fundo dos olhos) É que no
seu coração há qualquer nuvem a sombreá-lo.
ZILDA
O senhor é um poeta!
PEDRO
Quem não é, debaixo das estrelas do céu, ao lado
duma estrela da terra?
ZILDA
(palpitante) Pobre de mim.
Pedro olha para o céu estrelado. À medida em que fala, levanta-se
e aproxima-se de Zilda. Ficam lado a lado, quase encostados.
PEDRO
O amor... A Via Láctea da vida! (dá uma conferida
no roteiro) Amar, ouvir estrelas... Amai, pois só
quem ama entende o que elas dizem.
ZILDA
Que belas palavras... Pena que sejam falsas.
PEDRO
Não estou entendendo.
ZILDA
Eu descobri que o senhor é um farsante. Pensei que
nunca voltaria a vê-lo.
PEDRO
Eu disse que voltaria.
ZILDA
O que o senhor diz vale tanto como o canto da
cigarra. Se perde ao vento.
PEDRO
Diga que desconfia do meu amor e eu partirei para
sempre.
Zilda segura-o pelo braço.
ZILDA
Ainda não. Não deixarei que parta sem que... sem
que...
Pedro dá uma olhada no roteiro.
PEDRO
Sem que me pague...
ZILDA
Sem que me pague uma última promessa.
Os dois ficam parados, muito próximos, olho no olho.
ZILDA
E agora?
PEDRO
Eles se beijam.
Zilda desarma o personagem.
ZILDA
Que tal?
PEDRO
Muito bom.
ZILDA
Fiquei um pouco nervosa.
PEDRO
Não pareceu.
ZILDA
Faltou alguma coisa?
PEDRO
Faltou. O beijo.
Pedro segura Zilda pelos ombros e dá-lhe um beijo.
ZILDA
Humm... É assim que os atores beijam no cinema?
PEDRO
Não sei. Quando era ator nunca dei um beijo assim,
apaixonado.
ZILDA
Você já foi ator? Que filme?
PEDRO
Você não deve ter visto. "Uma Fazenda Muito
Louca".
ZILDA
Infantil?
PEDRO
Não muito.
ZILDA
Tinha cenas de beijos?
PEDRO
De vários tipos.
ZILDA
Qual o seu tipo preferido? Me ensina?
Pedro olha para ela, completamente apaixonado.
PEDRO
Ensino.
Beijam-se apaixonadamente.
CENA 18 - FAZENDA DO ESPIGÃO/QUARTO - INTERIOR - NOITE
eliminada
CENA 19 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FACHADA - EXTERIOR - DIA
Pedro, com a pasta e o tubo na mão, na frente da casa da fazenda.
O táxi chega.
PEDRO
Tenho que ir, ou perco o avião.
ISAURA
Espera só um instantinho.
Isaura corre na direção da casa.
DAVI
(inseguro) E... Pedro... Como nós vamos fazer
para... oficializar o negócio?
PEDRO
Já está tudo OK no Ministério. Semana que vem,
vamos até o cartório e assinamos tudo. Posso
mandar o contrato por fax. O senhor tem fax aqui
na fazenda, não tem?
DAVI
Tenho, claro. Mas não se preocupe com papelório. O
pagamento é à vista, não é?
PEDRO
À vista.
Pedro olha para Zilda. Zilda sorri. Isaura chega com um pacote
nas mãos e entrega-o para Pedro.
ISAURA
Um queijo. E ovos das nossas galinhas. Quer dizer,
das suas galinhas, para o senhor ir se
acostumando.
Davi entrega a ele a moringa.
DAVI
E a moringa que o senhor gostou.
PEDRO
Não posso aceitar.
DAVI
Se não aceitar nos ofende.
PEDRO
Eu levo... Como uma prova de que ainda existe
gente maravilhosa como vocês, que entregam o que
tem de mais precioso por acreditarem num homem
simples - e sincero - como eu. E, é claro, por
acreditarem no cinema brasileiro.
Pedro entra no táxi e dá um último adeusinho. O táxi arranca, bem
devagar. Zilda enxuga uma lágrima. Davi percebe e coloca
carinhosamente a mão no ombro da filha.
DAVI
Foi um milagre aparecer um comprador como esse.
ISAURA
Nem dá para acreditar.
CENA 20 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE JANTAR - INTERIOR - NOITE
CARTÃO - "DUAS SEMANAS DEPOIS"
Davi, Isaura e Zilda estão na sala. Toca o telefone, que agora
está acoplado a um aparelho de fax. Davi levanta-se e atende.
Isaura e Zilda olham para ele, ansiosos. Davi ouve por alguns
instantes, depois desliga.
ISAURA
Era ele?
DAVI
Não. Era o seu Ernesto querendo receber o que
estamos devendo. O queijo, a torta, os ovos, os
biscoitos... Isso sem falar no fax, que eu prometi
devolver semana passada.
ISAURA
Esse sujeito nos enganou.
ZILDA
Talvez ele esteja com algum problema com o
patrocinador.
CENA 21 - HALL DA PENSÃO - INTERIOR - DIA
Pedro está passando rapidamente pelo hall da pensão, carregando
uma sacola e o canudo com o banner. OSMAR, o dono da pensão (40
anos), de repente, aparece na sua frente, cortando-lhe o caminho.
OSMAR
Seu Pedro!
PEDRO
Seu Osmar, que prazer em vê-lo.
OSMAR
São dois meses atrasados, seu Pedro, isso sem
contar a conta do telefone. Sinto muito, mas vou
ter que despejar o senhor.
PEDRO
(ofendido) Me despejar? Mas por quê? Eu já lhe
expliquei que...
OSMAR
Não pense que o senhor vai me enrolar com essa
história de cinema.
PEDRO
O contrato já foi redigido. O dinheiro deve estar
entrando no banco hoje mesmo. Só falta uma
assinatura.
OSMAR
Foi o que o senhor me disse na semana passada.
Toca o telefone. Osmar vira-se para atender. Pedro aproveita e
sai.
OSMAR
Alô. Só um minuto. (para Pedro) Ei! Ei! De hoje
isso não passa! (ao telefone) Alô? (...) Sim?
(irritado) Acabou de sair.
Coloca o fone no gancho. Davi entra na pensão.
DAVI
Boa tarde. Eu quero falar com Pedro Trancoso.
OSMAR
E eu também! Quando eu pegar esse desgraçado, vou
acabar com ele.
DAVI
Pois justamente é o que eu gostaria de fazer. Meu
nome é Davi Moreira de Souza e eu...
OSMAR
Olha... Seu Davi. Eu vou poupar o senhor da
explicação. O senhor tem uma fazenda?
DAVI
Tenho. Como tu sabe?
OSMAR
E o Pedro Trancoso esteve lá na sua propriedade,
não é? Disse que queria fazer um filme. Ele foi
muito simpático. Tão simpático que o senhor
convidou ele pra jantar.
DAVI
(confuso) E pra dormir.
OSMAR
E o grande produtor cinematográfico dormiu e comeu
do bom e do melhor. Eu já ouvi essa história
antes... Por acaso, o senhor lhe deu algum
presente?
DAVI
Por quê?
Osmar abre um armário e retira dali um pelego, uma garrafa de
pinga, duas rapaduras, a moringa.
OSMAR
Ele usa os presentes para aliviar a dívida aqui na
pensão.
Davi reconhece a moringa.
DAVI
Minha moringa.
OSMAR
O senhor já viu o filme que ele fez, quando era
ator?
DAVI
Não.
OSMAR
"Uma fazenda muito louca". Dá uma olhada que vale
a pena, têm em vídeo. Mas não deixe a sua mulher
ver junto. (compadecido) E pode levar a sua
moringa.
Davi sai, cabisbaixo. RICARDO ANDRÉ, o galã, cruza com ele e vai
falar com Osmar, que está fazendo contas no balcão.
RICARDO ANDRÉ
Eu quero falar com o Trancoso.
OSMAR
(sem olhar para Ricardo André) O senhor e a
torcida do Flamengo.
RICARDO ANDRÉ
É importante. Onde ele está?
Osmar levanta os olhos e fica muito surpreso.
OSMAR
Eu conheço o senhor, o senhor é Ricardo André, O
Doutor Marcos, de "A Ingrata"! E o idiota do
comercial da barata bêbada. Sensacional!
RICARDO ANDRÉ
(brabo) Em breve, serei conhecido como o astro de
"O comprador de fazendas". Saiu o patrocínio.
Quase dois milhões. Onde está o Trancoso?
CENA 22 - ESCRITÓRIO - INTERIOR - DIA
Eliminada
CENA 23 - LOCADORA DE VÍDEO - INTERIOR - NOITE
A ATENDENTE aponta para uma das prateleiras. Zilda olha na
direção apontada. Zilda passeia num dos corredores, olhando os
títulos. A porta da locaora abre e fecha às suas costas. Alguém
entra. A mão de Zilda passa pelas lombadas das fitas: "Como
consolar viúvas", "As desquitadas em lua de mel", "As cangaceiras
eróticas", "O bem dotado", "Aventuras de um jumento tarado", "O
filho do jumento tarado", "Uma fazenda muito louca". Sua mão pára
sobre a fita "Uma fazenda muito louca". Zilda tira a fita da
prateleira. Olha a capa. Há uma garota bonita, de biquini, em
primeiro plano e um jumento ao fundo. Pedro, ao lado da garota,
nu, tem o sexo coberto por uma tarja preta.
DAVI (OFF)
Eu também quero ver esse filme.
Zilda leva um susto. Vira-se. É seu pai, com a moringa na mão.
CENA 24 - HALL DA PENSÃO - INTERIOR - NOITE
Pedro assina um cheque e entrega para Osmar. Ricardo André está
ao lado de Pedro.
PEDRO
Está pago. E mais um mês adiantado.
OSMAR
Tem certeza que tem fundo?
PEDRO
Tem e sobra. Quase dois milhões.
OSMAR
E o que tu vai fazer com todo esse dinheiro.
Pedro?
PEDRO
O que o senhor acha? Vou fazer o filme. Já tenho o
ator (bate no ombro de Ricardo André) e a atriz. E
que atriz.... (para Ricardo André) A fazenda é
perfeita. Uma ruína. Mas o melhor é a moça. Você
vai ver amanhã.
RICARDO ANDRÉ
À noite tenho um compromisso na cidade. Baile de
debutantes. Vinte mil, sem nota.
PEDRO
É só para conhecer a moça. E a casa. A família é
gente simples, me tratam como um filho. Você vai
ver. Eles me adoram. (para Osmar) O senhor já
esteve apaixonado de verdade, seu Osmar? De
verdade mesmo? Então deve saber como é. Dói. Dói
muito.
CENA 25 - LOCADORA DE VÍDEO - INTERIOR - NOITE
(com insert de FILME PORNÔ)
INSERT (cena de filme pornô - campo)
Pedro Trancoso, de cabelos compridos e com calça boca de sino,
beija a garota bonita. De repente, a garota interrompe o beijo,
olha para o lado e abandona Pedro. A garota corre até um jumento
e o abraça.
Zilda e Davi, ambos de boca aberta, nas proximidades do balcão da
locadora, assistem ao filme num monitor preso a um rack na
parede. Estão muito constrangidos. O jumento zurra.
DAVI
Isso deve doer. Doer muito.
INSERT (cena do filme - campo)
Pedro tenta fazer uma cara de desalento, demonstrando toda a sua
falta de talento.
Davi e Zilda olham-se, ainda mais constrangidos.
CENA 26 - CARRO - EXTERIOR - NOITE
eliminada
CENA 27 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE JANTAR - INTERIOR - DIA
A família reunida. Clima de enterro.
ISAURA
Um moço que parecia tão educado...
DAVI
(para Isaura) Ele é um cachorro. (dá uma olhada
para Zilda) O único filme que fez na vida é...
É... É uma pouca vergonha! Eu vou matar esse
desgraçado!
ISAURA
Deus me livre, Davi. Quer acabar preso?
DAVI
Matar é jeito de falar. Vou só tirar o couro.
ISAURA
Quem manda ser bobo? Ele não cometeu nenhum crime,
não roubou nada. Tudo que ele pegou nós demos de
presente. De mão beijada.
Olha para Zilda. Zilda sai da sala, chorando.
CENA 28 - FAZENDA DO ESPIGÃO - FRENTE - EXTERIOR - DIA
Pedro e Ricardo André descem do carro na frente da fazenda.
PEDRO
Não é uma beleza?
RICARDO ANDRÉ
Ótima. Está caindo aos pedaços.
PEDRO
Eu não falei? Dá uma olhada no jardim, é um
desastre. Eu vou avisar que nós chegamos.
CENA 29 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE JANTAR - INTERIOR - DIA
Davi serve um copo de água da moringa. Olha para um santo
Expedito na parede.
DAVI
Santo Expedito há de cruzar o meu caminho com esse
cachorro.
A porta se abre. Pedro entra, sorridente, o canudo do banner na
mão.
PEDRO
Bom dia.
Davi e Isaura olham para ele, pasmos. Isaura olha para o santo e
faz o sinal da cruz. Davi pega a moringa e olha para o santo.
DAVI
Obrigado, meu santo.
CENA 30 - FAZENDA DO ESPIGÃO/JARDIM INTERNO - EXTERIOR - DIA
Ricardo André passeia entre as árvores. Zilda chega, chorando.
Ricardo André se vira. Ela olha para ele, boquiaberta.
RICARDO ANDRÉ
Bom dia.
Ela continua paralisada.
RICARDO ANDRÉ
(constrangido) Muito bonito aqui. As plantas, os
musgos...
ZILDA
(nervosa) Que belas palavras... Pena que sejam
falsas.
RICARDO ANDRÉ
Não estou entendendo.
ZILDA
Eu descobri que o senhor é um farsante. Pensei que
nunca voltaria a vê-lo.
RICARDO ANDRÉ
Por acaso eu lhe conheço? Eu nunca estive aqui.
ZILDA
O que o senhor diz vale tanto como o canto da
cigarra. Se perde ao vento.
RICARDO ANDRÉ
A senhora me desculpe, mas eu tenho um
compromisso...
Zilda segura-o pelo braço.
ZILDA
Ainda não. Não deixarei que parta sem que me pague
uma última promessa.
Zilda agarra Ricardo André pelos ombros e tasca-lhe um beijo na
boca.
Som de uma moringa sendo quebrada na cabeça de alguém.
CENA 31 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE ESTAR - INTERIOR - DIA
Pedro ergue-se, confuso. Cacos de moringa pelo chão.
PEDRO
Eu já expliquei.
Davi pega uma vassoura e começa a bater em Pedro.
DAVI
Eu vi o seu filme, cachorro. Fazer aquilo com a
pobre garota!
Pedro protege-se das vassouradas com o canudo do banner.
PEDRO
Jumento tava na moda. E a garota gostava dele.
DAVI
Ah, desgraçado. Cadê a espingarda?
ISAURA
Calma, Davi!
PEDRO
As cenas de sexo foram feitas por um dublê, eu sou
bem diferente. (desesperado) Pergunta pra Zilda.
DAVI
O quê? Eu te mato! Cadê a espingarda?
Pedro larga o banner e sai correndo para fora da casa.
DAVI
Solta os cachorros, Isaura!
ISAURA
Pega, Brinquinho! Isca, Joli!
CENA 32 - FAZENDA DO ESPIGÃO/FRENTE - EXTERIOR - DIA
Pedro sai correndo da casa, seguido pelos cachorros. Encontra-se
com Ricardo André, que vem do jardim.
PEDRO
Eles são loucos!
RICARDO ANDRÉ
Já percebi!
Os dois cachorros avançam. Pedro e Ricardo André entram no carro.
Os cachorros latem no vidro. Davi e Isaura aproximam-se.
DAVI
(carregando a espingarda) Volta aqui, desgraçado,
eu te mato!
RICARDO ANDRÉ
Vamos embora!
O carro arranca, os cachorros atrás. Zilda vem correndo. Davi
aponta a arma, mas Zilda empurra o cano para cima. Davi dispara.
A caminhonete de Pedro some depois do portão.
ZILDA
Aquele é o Ricardo André! Você tentou matar o
Ricardo André!
ISAURA
Ricardo André? Meu Deus!
DAVI
Quem é Ricardo André?
CENA 33 - FAZENDA DO ESPIGÃO/SALA DE ESTAR - INTERIOR - NOITE
(com inserts na TV de ENTREVISTA e FILME)
A fazenda continua na mesma penúria, até pior. Davi, Isaura e
Zilda assistem televisão, em silêncio.
INSERT/TV
Na TV, Ricardo André dá uma entrevista.
RICARDO ANDRÉ
Eu acreditei no projeto desde o início. O texto do
Monteiro Lobato é uma maravilha, o roteiro, as
locações, tudo perfeito. Estou muito feliz. Claro
que o principal mérito é do Pedro.
Repórter vira-se para Pedro Trancoso.
REPÓRTER
O quê a indicação para o Oscar representa para o
filme?
PEDRO
Toda esta divulgação deve aumentar ainda mais o
interesse do público pelo filme.
REPÓRTER (OFF)
Mais bilheteria...
PEDRO
Dinheiro para mim é o de menos. O importante é a
gente ter um sonho e acreditar nele.
INSERT/FILME
Na TV, passa uma cena do filme, a cena do jardim, com Ricardo
André e PATRÍCIA MASCARENHAS, 20 anos. Zilda e família assistem e
choram. Sobem os créditos.
PATRÍCIA MASCARENHAS
O senhor é um poeta!
RICARDO ANDRÉ
Quem não é, debaixo das estrelas do céu, ao lado
duma estrela da terra?
PATRÍCIA MASCARENHAS
(palpitante) Pobre de mim.
RICARDO ANDRÉ
O amor... A Via Láctea da vida! Amar, ouvir
estrelas... Amai, pois só quem ama entende o que
elas dizem.
Beijam-se. A família chora. As estrelas e uma linda lua emolduram
a Fazenda do Espigão.
FIM
(c) Carlos Gerbase e Jorge Furtado, 2001
Casa de Cinema de Porto Alegre
http://www.casacinepoa.com.br
09/05/2001
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