[Mel Maia e Alana Cabral em cena de MEDLEY]
MEL MAIA PROTAGONIZA “MEDLEY” (2026), FILME DIRIGIDO POR ANA LUIZA AZEVEDO.
Por Ticiano Osório
GZH, 28/10/2026 | 15:44
/ Estrelado por Mel Maia, filme de Ana Luiza Azevedo chega a Porto Alegre com duas sessões comentadas
/ Diretora conversa sobre “Medley” (2026) nesta quinta (29), às 19h30min, na Sala Paulo Amorim, e na terça (3), às 19h, na Cinemateca Capitólio. Título também entra em cartaz no CineBancários
Estreia nesta quinta-feira (29) o quinto longa-metragem da diretora gaúcha Ana Luiza Azevedo: Medley (2026), um drama protagonizado pela atriz carioca Mel Maia e ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1990. Em Porto Alegre, o título entra em cartaz no CineBancários, às 19h; na Cinemateca Capitólio, às 17h (exceto neste sábado) e às 19h; e na Sala Paulo Amorim, às 19h30min.
Haverá duas sessões comentadas pela própria cineasta. A primeira é nesta quinta, às 19h30min, na Paulo Amorim. A segunda será na terça-feira (3), às 19h, na Capitólio.
Integrante da Casa de Cinema de Porto Alegre desde a fundação da produtora, em 1987, Ana Luiza, 66 anos, realizou curtas premiados, como 3 Minutos (1999) e Dona Cristina Perdeu a Memória (2002), antes de lançar seu primeiro longa, Antes que o Mundo Acabe (2009). Depois, assinou com Jorge Furtado Quem É Primavera das Neves (2017) e Vai Dar Nada (2022) e dirigiu Aos Olhos de Ernesto (2019).
Com distribuição da Vitrine Filmes, Medley é baseado no livro Medley ou Os Dias em Que Aprendi a Voar (2021), de Keka Reis, que se inspirou nas suas memórias. Ela também escreveu o roteiro do filme, sob consultoria de Carolina Kotscho. A direção de fotografia é de Lilis Soares, e a montagem, de Giba Assis Brasil. Monica Palazzo fez a direção de arte, Renata Russo, o figurino, e Leo H, a trilha sonora.
Vista recentemente na série Os Donos do Jogo (2025), Mel Maia interpreta a adolescente Lola, um nadadora talentosa que precisa lidar com um bloqueio: não consegue executar o nado borboleta, um dos quatro estilos da prova conhecida como medley - os outros três são costas, peito e crawl (livre).
A protagonista também vive em conflito com a mãe, Catarina (papel de Mariana Lima), e carrega o trauma da ausência do pai, de quem guarda poucas lembranças. Durante as férias em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, Lola ingressa em uma equipe de natação competitiva e começa uma jornada de autodescoberta, na qual tem de enfrentar seus medos e desvendar segredos do passado de sua família.
“Medley” e os temas de Ana Luiza Azevedo
[A diretora Ana Luiza Azevedo (de chapéu) com a continuísta Mara Cecília no set de “Medley”.]
Medley suscita várias aproximações com os longas e curtas anteriores de Ana Luiza Azevedo. A protagonista adolescente remete a Antes que o Mundo Acabe, que também retrata uma história de amadurecimento e no qual também há um pai distante ou ausente. O tema da memória e a redescoberta de lembranças já estavam presentes em Dona Cristina Perdeu a Memória e Aos Olhos de Ernesto. Existe ainda um bloqueio emocional, a exemplo de Três Minutos ou mesmo Barbosa (1988), curta-metragem realizado com Jorge Furtado.
Em entrevista, a diretora falou sobre essas reflexões e comparações:
– É verdade, a relação com o pai ausente é algo em comum entre Medley e Antes que o Mundo Acabe, e essa é uma questão que me interessa, porque a ausência paterna é um assunto bem sério no Brasil. Mais de 85% dos lares são providos por mulheres. São mães solo, com razões diferentes, algumas mais traumáticas, outras menos, mas é um dado bem importante sobre o qual a gente, sim, tem que falar.
Mas os dois filmes apresentam situações distintas, aponta Ana Luiza:
-- Em Antes Que o Mundo Acabe, é uma relação não traumática, a escolha do pai de ir embora não interfere no desenvolvimento do personagem Daniel, né? A mãe consegue prover e construir uma família que dá uma estrutura emocional. A chegada do pai desequilibra essa família e faz o Daniel crescer descobrindo que outros mundos são possíveis para além daquela pequena cidade. Em Medley, a ausência do pai também foi uma escolha daquele jovem casal, mas uma escolha que deixou marcas e traumas muito grandes. A Catarina, a mãe de Lola, não consegue falar sobre o assunto. O silêncio e o mistério da ausência do pai geram um buraco entre as duas, uma dificuldade de falar sobre o passado. Então, Lola tem que mergulhar naquele passado, tem que descobrir o que aconteceu para poder restabelecer a relação com a mãe e crescer.
Para Ana Luiza, a história de Medley permite, de alguma forma, “falar metaforicamente do Brasil”:
-- A gente não pode deixar de olhar para o passado para poder avançar rumo ao futuro e para não repetir o passado.
E aí, nesse olhar para o passado, naturalmente vem à tona o tema da memória:
-- Em Medley, a memória vem com flashes. Ela busca algumas pequenas peças que vai montando no quebra-cabeça que é a vida dela. Acho que, como nos outros filmes, no caso do Dona Cristina e no caso do Ernesto, a memória é muito cara, a memória é fundamental. Não ter essa memória é não ter história.
Os temas e a proposta da diretora são potencializados pelo ofício da protagonista. As cenas na piscina e no alto-mar trouxeram desafios, mas também recompensas: possibilitaram dramatizar a solidão de Lola e também os silêncios e as ausências com que ela tem de lidar.
-- A água me ajudou muito na narrativa - diz Ana Luiza. - Eu gosto de nadar, e a água, quando tu mergulha, ela te afasta um pouco do mundo real. Quando tu escuta um som externo, ele chega distorcido, assim como as imagens não ficam nítidas. Quando tu está nadando, é só o teu corpo ali, solitário, com teu pensamento. A relação da Lola com a água tem uma questão de válvula de escape. Ela foge dos problemas da realidade mergulhando na piscina e nadando sem parar. E com as braçadas e a respiração cadenciada, Lola consegue um equilíbrio. Mas, ao mesmo tempo, é na água que virão as lembranças do pai, porque elas também têm relação com a água, com as idas à praia, os banhos de mar, os mergulhos na piscina.
