Pascal e a carta longa

PASCAL E A CARTA LONGA
26/08/2012
(para Luis Augusto Fischer)

“Se eu tivesse mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.”

A tal frase, que se desculpa pela extensão da carta por falta de tempo de ser breve, não é do Padre Vieira, nem do Voltaire, mas de um contemporâneo do primeiro e precursor do segundo: Blaise Pascal.

Me identifiquei muito ao ler a tua procura pelo autor da frase no Google, porque eu fiz a mesma coisa ano passado, e passei pelas mesmas armadilhas. Mas acho que cheguei lá.

A frase está nas “Cartas provinciais” (“Les provinciales”, 1656), que Pascal escreveu endereçadas aos jesuítas, sob o pseudônimo de Louis de Montalte, tentando inocentar o amigo Antoine Arnauld, que havia sido expulso da Sorbonne, mas no fundo defendendo os princípios do jansenismo e ridicularizando os costumes dos padres. (O livro, publicado no ano seguinte, entrou imediatamente pro index prohibitorum.) É o começo do penúltimo parágrafo da carta XVI, de 04/12/1656. Não encontrei nenhuma tradução em português, mas tem uma versão completa em inglês, numa edição australiana, de Thomas M’Crie, da Universidade de Adelaide:

“Reverend fathers, my letters were not wont either to be so prolix, or to follow so closely on one another. Want of time must plead my excuse for both of these faults. The present letter is a very long one, simply because I had no leisure to make it shorter. You know the reason of this haste better than I do.”

http://ebooks.adelaide.edu.au/p/pascal/blaise/p27pr/part17.html

A partir daí cheguei ao original em francês:

“Mes réverend pères, mes lettres n’avaient pas accoutumé de se suivre de si prés, ni d’être si étendues. Le peu de temps que j’ai eu a été cause de l’un et de l’autre. Je n’ai fait celle-si plus longue que parce que je n’ais pas eu le loisir de la faire plus courte. La raison qui m’a obligé de me hâter vous est mieu connue qu’à moi.”

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k205164n/f333.image

E é claro que tenho um interesse particular nessa frase e na ideia por trás dela. Acho que ela poderia ser o lema profissional dos montadores.