Detectores de IA

[Ilustração retirada da matéria “How AI detectors can destroy innocent writers’ livelihoods”, de Eric Hauch, que eu recomendo]

Acabei de testar o Justdone, uma das muitas ferramentas que surgiram recentemente na internet supostamente para “verificar se um texto foi escrito por Inteligência Artificial”. Esta, no caso, se apresenta como tendo “a confiança de alunos de mais de 3000 universidades e instituições importantes”, e tem inclusive um rodapé móvel com logos da UCLA, PennState, Cornell University, Johns Hopkins, NYC Department of Education, etc.

Primeiro teste: um texto que foi inteiramente gerado, a meu pedido, pelo DeepSeek, a IA generativa chinesa. Uma solicitação profissional do início do ano passado que eu não estava conseguindo atender, e para a qual eu tinha resolvido, vergonhosamente, pedir ajuda ao oráculo digital. Resultado: “73% do seu texto parece ter sido gerado por IA”. O certo seria 100%, mas digamos que o Justdone acertou essa.

Segundo teste: a minha versão do texto mencionado acima, um texto que eu escrevi a partir da proposta gerada pelo DeepSeek, em que eu - de novo vergonhosamente - mantive a estrutura apontada e (suponho) uns 25% das palavras originais, mas para o qual eu tive o cuidado de reescrever cada uma das frases. Segundo o Justdone, minha tentativa foi completamente inútil, na verdade contraproducente: ao tentar dar um toque pessoal em um documento que teria sido gerado “73% por IA”, eu cheguei a uma escrita “91% gerada por IA”. Pelo jeito, o Justdone considera o DeepSeek mais humano que eu. Quem sabe ele tem razão.

Terceiro e definitivo teste: um texto que eu escrevi quase 10 anos atrás, quando IA generativa ainda era pouco mais que assunto de ficção científica: uma versão inicial, de 8 páginas, de um texto nunca concluído, mas que, ao contrário dos testes anteriores, tinha um título: “Eu em 60 capítulos”. Resultado interessante e irônico: “87% do seu texto parece ter sido gerado por IA”. Rodei no teste de Turing.

Ainda vale a pena um quarto teste? Colei os 4 parágrafos acima no Writer, exportei pra PDF e carreguei no Justdone. Em poucos segundos, a sentença: “91% do seu texto parece ter sido gerado por IA”. Esse deve ser o meu limite pessoal: eu sou 87% IA, mas se eu tento mexer em algum texto de IA (ou apenas mencionando IA, como no teste 4) subo pra 91%; ao contrário, se eu apenas solicito que a IA faça o trabalho que eu devia ter feito, consigo ser 27% eu mesmo. Pra mim parece pouco, quase nada, mas talvez seja mais do que suficiente para alguns colunistas do UOL.

Picaretagem, certo? Pior que isso. A cada diagnóstico fornecido pelo autointitulado “detector de IA”, aparecia um popup: “Quer que a gente humanize seu texto?” Nos dois primeiros testes, eu ignorei a pergunta. Mas, no caso do “Eu em 60 capítulos”, resolvi clicar no botão “humanizar”.

Depois de alguns segundos “analisando o tom e a estrutura”, o Justdone me perguntou: “Que tom de voz seu texto deve ter?”, e me apresentou 4 opções: acadêmico, formal e profissional, neutro e claro, natural e coloquial. Marquei a última opção. Mais um tempo de espera enquanto a ferramenta estava “reescrevendo para linguagem natural”. E mais um popup: “Qual deve ser a intensidade da reescrita?”, agora com 3 opções: leve (manter o tom e a estrutura originais); equilibrado (reescrita humana natural); ou forte (reescrita significativa). Hesitei, mas pedi que ele fosse leve. Afinal, não era um texto genérico oferecendo coaching de empreendedorismo, era “eu em 60 capítulos”, ou pelo menos o começo disso. Por favor, Sr. Justdone, seja leve.

E, após mais alguns segundos “otimizando o texto para atender aos padrões”, apareceu o resultado:

“Humanizado! Seu texto agora está 100% indetectável”.

Indetectável? Então era isso que o Justdone, afinal, estava oferecendo? Um texto escrito e reescrito por IA, mas “indetectável”. Não uma ferramenta para professores verificarem se seus alunos se deram ao trabalho de fazer o exercício solicitado. Não um autoteste para redatores envergonhados (sim, eles ainda existem) que recorreram à IA mas têm dúvida se trabalharam o suficiente para que a proposta da máquina ganhasse um tom pessoal. É bem possível que a “verificação” seja apenas simulada, e os percentuais, totalmente aleatórios. Os resultados do 4 testes que eu fiz indicam claramente essa possibilidade.

O que o Justdone me oferece é simplesmente um mecanismo para “tornar mais humano” (e até mesmo “indetectáveis) textos que eu supostamente deveria escrever, mas que por algum motivo eu preciso (ou simplesmente quero) que sejam escritos por IA. Afinal, quem melhor para “humanizar” um texto escrito por IA do que uma IA? Ponto pros colunistas preguiçosos e pros coaches de empreendedorismo. Ponto pra picaretagem em geral.

E é claro que o resultado veio junto com um botão “Desbloquear texto”, que me levou a uma nova janela, onde eu teria mais três opções: o “plano mensal ilimitado” ($ 14,99 por mês), o “plano anual ilimitado” (marcado como “melhor preço: $ 10 por mês”) ou o “acesso por 7 dias” (por apenas $ 2,00, mas em letras miúdas: “depois 19,99 por mês”). Um detalhe engraçado é o uso do cifrão genérico, sem específicar a moeda. Suponho que seja dólar. Tanto faz.

Não fui adiante. Fiquei curioso, mas me recuso a pagar pelo próximo teste óbvio: será que o Justdone detecta suas próprias interferências “indetectáveis”? Ou mesmo as realizadas pelos outros detectores de IA disponíveis no mercado, acessíveis na primeira página de qualquer mecanismo de busca: QuillBot, Grammarly, Copyleaks, até um “AskGPT”? Não sei se todos eles propõem o mesmo nível de picaretagem. Não sei se algum deles pode ser realmente uma ferramenta útil.

Não importa. O que parece claro é que nós estamos perdendo essa briga. Nós, humanidade.