
UTOPIA: TEM, MAS ESTAMOS EM FALTA
Fui convidado pelo Tarso Genro para falar neste encontro sobre “Os intelectuais e a organização da cultura” (Em tempos de guerra contra a soberania e a democracia).
Não sou um intelectual, minha vocação é buscar a desorganização da cultura, mas estou bastante interessado em defender a soberania e a democracia, em tempos de guerra ou de paz, e acredito que encontrar pessoas para conversar é um ato revolucionário.
Por recomendação de Kurt Vonnegut Jr. minha fala seguirá o método utilizado pelo exército americano de como ensinar, que é o seguinte:
Primeiro diga o que você vai dizer. Depois diga. Depois diga o que você disse.
O que eu vou dizer é que nós, a esquerda, estamos sem utopia. Sem utopia, não dá. Não dá para viver, não dá para ser feliz. E não dá para fazer política, a política trata do que temos em comum, nossa utopia.
Vou dizer também que o desmilinguir das utopias da esquerda passa por uma incompreensão do que representam, para a maioria da população, os valores básicos da utopia da direita, sintetizada no slogan fascista: Deus, pátria e família.
Eu vou dizer também que qualquer que seja a utopia que quisermos inventar para o Brasil, ela passa pela segunda abolição da escravatura. Somos o país mais racista do planeta.
Hoje temos aqui um objetivo comum, imagino, que é o de tentar fazer algo para impedir a volta do governo fascista, vitaminado pela reeleição depois de tentar destruir a democracia, a exemplo do que vemos nos Estados Unidos.
Nossa urgência é eleger o Lula, eleger um congresso e um senado minimamente razoáveis, e isso daqui a seis meses. Não se pode chamar algo assim, marcável num calendário, de utopia. Temos uma tarefa. E depois?
O historiador inglês Gregory Claeys em “Utopia, a história de uma ideia”, diz que “O conceito de utopia ao longo dos tempos é uma variação de um presente ideal, de um passado ideal e de um futuro ideal e da relação entre os três. Todos eles podem ser míticos ou imaginários ou ter algum fundamento real.”
A ilha de Utopia, uma sociedade idealizada pelo filósofo inglês Thomas More, publicada em 1516, fica no Novo Mundo, recém descoberto. O personagem principal é um português, Rafael, um dos 24 marinheiros abandonados por Américo Vespúcio no Cabo Frio, Rio de Janeiro. Eles viajam ao sul e encontram uma ilha, separada do continente por um canal, Utopia talvez fosse em Florianópolis.
Na Utopia de Thomas More não há propriedade privada, não há acúmulo de riqueza, não há desemprego, nem fechaduras nas portas, mas há escravos. Eles não são escolhidos pela cor, raça ou religião, são prisioneiros de guerra ou criminosos cumprindo pena por algum crime.
Muitas utopias são baseadas num passado idílico, diferentes religiões falam do mundo antes do Paraíso Perdido ao qual voltaremos se nos comportamos bem: o Éden cristão e judaico, os campos Elíseos dos gregos, a Valhala dos nórdicos, o Jannah dos muçulmanos.
Essas sociedades idealizadas, míticas ou reais têm como ideia comum evitar os conflitos, as guerras, privilegiando o coletivo e em geral tornando mais iguais as propriedades e as classes sociais. Uma característica presente em todas as utopias é a diminuição das desigualdades.
- Pergunta sem resposta: Depois de quase 20 anos de governos de esquerda no Brasil, a desigualdade diminui? A resposta é sim. Quanto diminuiu? Muito pouco. Como, depois de quase 20 anos de governos de esquerda, continuamos sendo um dos 5 países mais injustos do planeta?
Falar em direita e esquerda assim pode parecer antigo, e é mesmo, o conceito nasceu 1789. Quase tudo mudou desde então, mas a ideia básica, simplificada, segue a mesma: a esquerda, em qualquer tempo ou lugar, defende os mais pobres, a direita defende os mais ricos.
Antonio Cândido dizia que “o comunismo só deu errado na Rússia”. Ele lembrava que as principais reivindicações dos primeiros socialistas, turnos de trabalho de oito horas, direito a descanso semanais e férias, proibição do trabalho infantil em minas de carvão, salário mínimo, fim dos castigos físicos, todas foram incorporadas nos estados liberais, enquanto a Rússia stalinista se tornava um estado militarista e opressor, onde “já não se sabia quem era homem e quem era porco”.
A esquerda, no Brasil, hoje, defende a escola pública, a segurança pública, a saúde pública, o transporte público, os bancos públicos, as distribuidoras de petróleo e eletricidade públicas, o SUS, o estado que serve a imensa maioria, os mais pobres. A direita defende o capital, a independência do Banco Central, as metas da inflação, os juros mais baixos ou mais altos, dependendo de que lado da banca você está, defende a minoria, os mais ricos.
Eu estava presente na primeira reunião do Conselhão, em Brasília. Os quatro primeiros inscritos para falar eram grandes capitães da indústria e dos bancos. Naquele momento, era o início do governo Lula, todos pediram a mesma coisa: segurança jurídica, foi a palavra de ordem. O quinto inscrito foi o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de São Paulo. Ele subiu ao palco e apresentou a sua reivindicação: chuveiros.
Entre a necessidades de segurança jurídica e chuveiros, nos ensina o Riobaldo em Grande Sertão, há um país “de mil-e-tantas misérias… Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons…”
Temos uma elite de 38.000 pessoas que ganham R$10.000 por dia ou mais. Eles querem riqueza e negócios bons. E segurança jurídica. E temos 80 milhões de pessoas que ganham até R$30 por dia. Eles querem emprego, comida, chuva. E chuveiros. Neste quadro, quando uma pessoa fala que “não há diferença entre esquerda e direita”, pode ter certeza, essa pessoa é de direita.
Há quem assinale o início da civilização humana há 15 mil anos. Tem esta idade o fóssil encontrado de homem adulto com um fêmur quebrado e calcificado. Nenhum bicho sobreviveria aos predadores com a perna quebrada. Ajudar alguém durante a dificuldade é o marco inicial da civilização, fazemos isso há pelo menos 15 mil anos.
Desde então os seres humanos foram fabricando e reciclando suas utopias. Sobreviver aos rigores da natureza. Ser capaz de produzir alimentos que resistissem ao inverno e às secas. Descobrir as melhores maneiras de enfrentar as doenças, as epidemias. Organizar a sociedade de forma que ela possa se defender dos seus inimigos.
Nossas utopias têm - ou tinham - em comum a ideia de que os humanos, em grupo, em sociedade, são mais capazes de proteger a vida de todos. O estado forte, o Leviatã (1651) de Thomas Hobbes, tem como primeiro e principal dever, como primeira utopia, manter uma civilização segura.
- Pergunta sem resposta: nos últimos 34 anos - desde 1992 até hoje - a centro esquerda liberal e a esquerda governaram o país por 29 anos. Temos uma civilização segura? Não temos? Aquilo que a direita chama de propostas para a segurança - mais armas, mais mortes, mais presos, presos mais jovens - só pode piorar tudo, é claro, mas qual é a proposta da esquerda para a segurança?
Tivemos, no mundo, a utopia da indústria, as máquinas iriam substituir todo o trabalho humano degradante e pesado. Oscar Wilde, em “A alma do homem sob o socialismo”, preconiza que todo trabalho degradante deveria ser feito por máquinas.
Tivemos a utopia da ciência, no fim do século XIX, tudo estava sendo inventado: a eletricidade, o rádio, a fotografia, o cinema, os antibióticos, a psicanálise, a anestesia, o avião, uma revolução industrial, científica e tecnológica que seria a base de uma nova sociedade igualitária e pacífica.
Mas a ciência é imoral: aquilo que puder ser feito, será feito. Na Primeira Guerra mundial o ser humano lembrou que a ciência e suas máquinas sempre foram usadas para o bem e para o mal, para salvar vidas e para matar: aviões, metralhadoras, carros de guerra e gazes venenosos estabeleceram novos parâmetros de morticínio.
A utopia fascista cresceu em sociedades destruídas pela guerra, foi vendida como uma mitologia de um passado glorioso e de uma raça superior, turbinada pelas palavras calculadamente loucas de vigaristas com sede de poder, repetidas exaustivamente a uma população de ressentidos e raivosos e terminou como sabemos: mais morte, mais destruição. “Fomos ver por onde a história tinha passado e, meu Deus, como os mortos cheiravam mal!”
Na Segunda Guerra, nossa visão da morte mudou. Todo ser humano nascia com a ideia de que enfrentaria a morte como um indivíduo. Então descobrimos que tínhamos o poder de nos eliminar do planeta, com bombas atômicas. Entendemos que poderíamos morrer como espécie, todos, coletivamente, em consequência de nossa própria estupidez. Como ensinou Bertrand Russell, “o ódio é tolo”.
Acossados pelo medo da destruição, sonhando que a Segunda Guerra Mundial fosse também a última, veio a utopia da paz, da ONU, a ideia de os países conversarem antes de jogar bombas uns sobre os outros. Essa utopia, conforme sabemos pelos noticiários da semana, está superada. Os conselhos ou falta de conselhos da ONU pouco importam, não fazem nenhum sentido
Nós vimos o fim do socialismo real em 1989. A queda do muro pareceu o fim de uma utopia e o surgimento de uma outra: o capitalismo venceu, não há mais opções na praça, mas o estado autoritário, militarista, perdeu. Viva a democracia! Foi o que nos restou de utopia: o estado capitalista democrático.
- Pergunta sem resposta: A democracia, como nós a conhecíamos, está na UTI, em estado grave. Como isso aconteceu?
Até os anos 80, quanto mais democrático um estado, mais justo ele era. Democracia e justiça social andavam lado a lado. A partir dos anos 80, com o fim da utopia socialista e de Ronald Reagan, a ideia passa a ser: “eu só preciso que o Estado não me atrapalhe”. A crença numa tal meritocracia, o individualismo, o egoísmo do cassino financeiro, sepultaram a ideia de que a democracia é boa pra todos. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Ganhar dinheiro, seja como for, passou a ser, para muita gente, a única utopia, o ideal de uma época.
Hoje, segundo a Serasa, metade da população brasileira adulta está inadimplente, tem dívidas atrasadas, que crescem sob os juros brasileiros, um dos maiores do mundo. São 81 milhões de pessoas que deixaram de pagar pelo menos uma dívida, estão “negativados”. Na média, cada negativado tem 4 dívidas não pagas. A média das dívidas, por CPF, é de 6.500 reais. Metade destes inadimplentes ganha até 1 salário mínimo. Hoje, o salário mínimo é de 1.621 reais.
Se ganhar dinheiro é a utopia, o que resta para um jovem que, com muitas razões, não gosta nem acredita na escola e não quer entrar para o mundo do crime, para uma dona de casa e mãe com muito trabalho e nenhuma profissão, para um pai sub-empregado e endividado? Sobra a utopia do Tigrinho.
25 milhões de pessoas apostaram nas bets no ano passado. Cada um perdeu, em média, 123 reais por mês, 1.480 reais por ano. 70% dos apostadores estão nas classes C, D e E. Em 2025, o lucro das bets - cujos proprietários são desconhecidos - foi de 37 bilhões de reais.
“Um estudo comparou a influência de diferentes fatores sobre dívidas das famílias brasileiras hoje, com indicadores que calculam os impactos do peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as apostas nas bets. As apostas se tornaram a causa mais relevante do endividamento.”
- Pergunta sem resposta. Quem, hoje, alerta para o perigo das bets? O Lula e a Damares. Cobrar mais impostos das bets aumenta a arrecadação do governo, mas resolve o problema que é o vicio do jogo na mão das crianças? Quem é capaz de, publicamente, sem receber cachê, defender a existência das bets?
A história das utopias do Brasil tem suas particularidades. Tivemos a utopia da independência, da República, do país modernizado no Estado Novo, dos cinco anos em cinco, da reforma agrária. E tivemos uma interrupção traumática dessas utopias com o golpe militar e a ditadura dos anos 60.
Naquele momento Brasil e o mundo caminhavam em direções contrárias. No mundo, havia uma explosão de criatividade, de liberdade, uma revolução de costumes, a negação de valores hipócritas, uma utopia da paz e do amor. Os jovens se opunham à guerra do Vietnã, os afro-americanos se opunham ao racismo, as mulheres afirmavam seus direitos, os artistas se opunham à censura, uma geração combatia tudo que representava “o sistema”. No Brasil, uma ditadura militar censurava, prendia, torturava e matava adversários políticos.
Meio século depois, os ideais de grande parte daquela juventude, de liberdade, de combate ao sistema, hoje são da direita. Hoje, a maioria dos jovens contestadores, anti-sistema, são de direita.
O filósofo búlgaro Ivan Krastev enumera cinco revoluções que aconteceram no mundo desde que a democracia triunfou no pós guerra, e comenta o que deu certo e o que deu errado.
“Primeiro foi a revolução social e cultural de 1968, que colocou o indivíduo no centro da política. Foi o momento dos direitos humanos. Basicamente, foi também algo mais importante, uma cultura de divergência, uma cultura basicamente de inconformismo, que não era conhecida antes. A segunda é a revolução do mercado dos anos 80, que passou a mensagem: “O governo não sabe o que faz. A terceira, o fim do comunismo, em 1989, o fim da Guerra Fria. Foi o nascimento do mundo globalizado. A quarta é a internet. (…) Ela mudou a forma de nos comunicarmos e de olharmos para a política. A própria ideia de uma comunidade política mudou totalmente. E a quinta, a revolução da neurociência, que mudou a maneira de entendermos como as pessoas tomam decisões.
Isto foi o que deu certo. Mas se olharmos o que deu errado, vamos ver as mesmas cinco revoluções. Primeiro temos os anos 60 e 70, a revolução social e cultural, que de certa maneira destruiu a ideia de um propósito coletivo, todos esses substantivos coletivos que ensinamos e aprendemos: nação, classe, família. E temos a revolução de mercado dos anos 80 e o grande aumento da desigualdade social. Lembrem-se, até os anos 70, a difusão da democracia sempre foi acompanhada do declínio da desigualdade. Quanto mais democráticas eram nossas sociedades, mais igualitárias. Agora temos a tendência inversa. A difusão da democracia é acompanhada do aumento da desigualdade. 1989. Foi o fim da Guerra Fria que rompeu o contrato social entre as elites e as pessoas da Europa Ocidental. Quando a União Soviética ainda estava lá, os ricos e poderosos precisavam das pessoas, porque as temiam. Agora as elites foram liberadas. São inconstantes. Não podemos rotulá-las. E elas não temem as pessoas. E como resultado, temos essa situação muito estranha na qual as elites ficaram fora do controle dos eleitores. Logo, não é por acaso que os eleitores não estão mais interessados em votar.”
Didier Eribon, dem “Retorno a Reims”:
“…a vitória da esquerda [na França] logo levaria a uma forte desilusão dos meios populares e a um afastamento em relação aos políticos em quem depositaram confiança e portanto seus votos, e pelos quais se sentiram negligenciados e traídos. Escutei várias vezes a seguinte frase, minha mãe a repetia toda vez que tinha a oportunidade de falar comigo: “Esquerda, direita, não faz diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam”.
Sigo com o raciocínio de Ivan Krastev:
“Quando conversamos sobre a internet, sim, é verdade, a internet nos conectou, mas também criou caixas de ressonância e guetos políticos nos quais podemos permanecer com a comunidade política a qual pertencemos pelo resto da vida. E está ficando cada vez mais difícil compreender as pessoas que não são como nós. E quando vamos para a neurociência, o que os assessores políticos aprenderam com os neurocientistas é não falar mais sobre ideias, não falar sobre programas políticos. O que importa mesmo é manipular as emoções das pessoas. “Oque deu certo também deu errado. Quando tentamos ver como podemos mudar a situação, quando tentamos ver o que pode ser feito com a democracia, deveríamos manter essa ambiguidade em mente. Porque provavelmente algumas das coisas que mais amamos também são as coisas que mais nos machucam. “
Eu não sei qual é a idade média dessa plateia. Eu nasci em 1959, tenho 66 anos. A minha geração, quando chegou na vida adulta e se meteu em política, ganhou todas.
Eu cheguei à universidade com 17 anos, em 1977. Já tinha passado o pior momento da ditadura, que estava definhando, agonizando, pelo fim do milagre econômico, por denúncias de corrupção, pela abertura política, pela resistência da geração antes da minha, pela coragem de alguns políticos, jornalistas, professores, e também pelo deboche do Pasquim e dos comediantes.
Voltaire disse que a avacalhação da realeza no libreto cômico de Beaumarchais para a ópera de Mozart, “O casamento de Fígaro”, era “a revolução já em marcha”. O humor é uma forma avançada de filosofia, está na linha de frente de qualquer revolução. Não é à toa que a imensa maioria dos comediantes brasileiros, hoje, é de direita.
A primeira luta da nossa geração foi pela anistia. Vencemos, os exilados voltaram.
Pelas diretas. No primeiro tempo, perdemos. Eu estava no Comício da Candelária em abril de 1984. Ulisses, Lula, Brizola, Miguel Arraes, Sobral Pinto, Mario Covas, Fernando Henrique, Tancredo, muitos artistas, todos juntos no mesmo palanque, e um milhão de pessoas, com o Lulu Santos, cantando uma utopia comum: “Eu vejo a vida melhor no futuro, eu vejo isso por cima de um muro, de hipocrisia, que insiste em nos rodear”.
Cinco anos depois, viramos o jogo. E tivemos uma enorme decepção: na hora de votar pela primeira vez, depois de quase trinta anos, os brasileiros escolheram alguém muito diferente deles, alguém que tinha a cara da Casa Grande.
Nossa luta passou a ser o Fora Collor, essa foi fácil. Entramos num ciclo de democracia e eleições livres. Os jovens da sala podem não acreditar, mas houve uma época que o nosso grande adversário, o grande entrave às conquistas civilizatórias era o Fernando Henrique Cardoso. FHC era o pior que podia nos acontecer, imaginem só.
Nossa utopia passou a ser eleger o Lula presidente. Lula venceu três eleições. Cinco, se considerarmos as duas em que ele elegeu Dilma. Nos últimos 24 anos, o PT governou por 17 anos.
Nesse momento, estamos sem utopia. E há hoje uma possibilidade bastante concreta de vermos a volta do fascismo, numa eleição democrática.
Parênteses: Eu chamo de fascismo porque é o que é, temos que dar nome aos bois. Bolsonarismo, trumpismo, são as marcas, o nome genérico é fascismo. Miguel Unamuno, em seu célebre discurso anti-fascista, reage ao slogan dos falangistas espanhóis: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”
No auge da epidemia, com centenas de mortos por dia, nosso presidente fazia piadas para a câmera, imitando as pessoas que morriam por falta de ar. Fazia propaganda de um vermífugo para combater uma epidemia viral, seu público eram as emas do jardim do palácio. Foi o único dirigente do mundo a afirmar: “Não tomei e não vou tomar vacina”. Ele é favor da tortura, e também quer eliminar as cadeiras de bebês no carro e aumentar os limites da velocidade nas estradas, tudo supostamente em defesa da liberdade individual. E tudo leva à morte, é sempre uma a defesa da morte.
O líder da mais poderosa nação do planeta, anteontem, ameaçou publicamente “extinguir uma civilização, em uma noite, e pode ser esta noite”. O próprio anúncio é um crime de guerra, uma ameaça de morte a 100 milhões de pessoas. Até o fechamento deste texto, ele não cumpriu a promessa.
Quando Trump anuncia, no tiktok, no x twitter e no instagram, que a guerra acabou e os Estados Unidos venceram, pouco importa a ele que, naquele exato instante, um míssil americano esteja matando uma centena de meninas de verdade que estudavam numa escola. Canetti diz que “a morte é o fato primeiro e mais antigo, talvez o único fato”. Sob o fascismo digital, a morte não é mais um fato. A vida real pouco importa. E as s meninas iranianas, e os 120 “bandidos”, quase todos pretos, eliminados no Rio de Janeiro, com o apoio de mais de 80% da população, pertencem à casta dos morríveis.
Esta é a base, a pedra fundamental da imensa desigualdade brasileira: o racismo.
Acho que a palavra mais correta para definir um sistema que criou e sustenta o Brasil, baseado na desumanização, aprisionamento, tortura e morte de seres humanos é escravismo. O sufixo ismo nos lembra que é um sistema, político e econômico, como o colonialismo, o socialismo, o capitalismo, o liberalismo.
O escravismo, no Brasil, está diretamente ligado ao racismo. Somos o país mais racista do mundo, isso não é minha opinião. O Brasil tem 55 por cento de população negra. (IBGE 2022). Somos o único país do mundo de maioria negra que jamais elegeu um líder negro. Não há outro.
Nosso racismo é principalmente fruto do escravismo que nos fundou, e que permaneceu legal durante quase 400 anos. É ilegal há um século e meio, mas sua proibição é uma daquelas leis que não pegaram muito por aqui. Joaquim Nabuco definiu nossa condição: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.”
15 milhões de africanos foram sequestrados, acorrentados e trazidos para a América. Mais de 3 milhões morreram no caminho, os corpos jogados ao mar mudaram as rotas dos tubarões no Atlântico. Para os que sobreviviam à travessia, a expectativa média de vida era de 10 anos, suportados sob as torturas mais cruéis. Hoje, quase 140 anos depois da abolição da escravatura, de cada 10 mortos pela polícia brasileira, nove são negros.
9 em 10.
Esse Brasil, mais negro, mais pobre, do norte e nordeste, garantiu a eleição de Lula em 2022. Se dependesse de nós, os brancos do sul, ou dos mais ricos, ou das pessoas com curso superior, o candidato da extrema-direita teria sido reeleito no primeiro turno.
- Pergunta sem resposta: o que o fato de pessoas com diplomas universitários demostrarem preferência pelo fascismo revela sobre as universidades brasileiras?
Também somos um dos países mais desiguais do mundo. A diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres só é pior na África do Sul, Namíbia, Zâmbia, República Centro-Africana e Eswatini (a antiga Suazilândia).
É evidente que estas duas marcas brasileiras, a escravidão e a desigualdade, estão interligadas, são dois sintomas da mesma doença: o racismo. E assim como havia campanhas contra abolição, que ela iria quebrar o Brasil, hoje há campanhas contra o fim da escala seis por um, com o mesmo argumento, que isso vai quebrar o país.
Há 24 anos alcançamos a utopia de eleger um governo de esquerda, com líder popular como Lula. Nos últimos 25 anos o PT esteve no governo por 20 anos, a direita e a extrema-direita governaram por 5 anos, com Temer e Bolsonaro. Fomos duplamente castigados com a pandemia e o fascismo.
O nosso foi o único governante do mundo a não tomar vacina, a dizer que não ia tomar vacina. Ele transmitiu este desprezo letal para muitos dos seus apoiadores: quanto mais bolsonaristas os estados e os municípios, mais mortes. Quase sempre, e especialmente numa epidemia, burrice mata.
Pesquisas sérias apontam que, dos 716 mil brasileiros e brasileiras que morreram de COVID, entre 200 e 400 mil morreram diretamente pela omissão, incompetência e por erros grosseiros do presidente e do seu governo. Os especialistas em logística do governo militar-bolsonarista, encarregados de distribuir vacinas, confundiam Rondonia (com 1 milhão e 800 mil habitantes) e Roraima (com 600 mil habitantes). Isso enquanto fotografavam a si mesmos refletidos na tampa do estojo das joias que roubavam.
Nossa breve utopia foi então retomar o poder pelo voto, derrotar o fascismo, superar uma epidemia mundial, evitar um golpe de estado, prender os golpistas.
Mais uma vez, deu tudo certo.
- Pergunta sem resposta: Se tudo deu certo, como chegamos aqui, em abril de 2026, sem utopias?
Em “Do transe à vertigem”, o sociólogo Gabriel Feltran elenca três “matrizes discursivas” do bolsonarismo:
“Anti intelectualismo evangélico, o “empreendedorismo monetarista” e o “militarismo policial”. O “anti intelectualismo evangélico” prega a rejeição da ciência e da educação formal em favor da religião e da experiência pessoal. A lógica, a racionalidade, o estudo, não são suficientes - talvez sejam inúteis - para melhorar a vida. A escola ensina coisas inúteis ou, pior, nefastas.
Depoimento de uma mãe, 40 anos, numa comunidade carioca: “Eu moro nesta casa com minha mãe, minha irmã, uma filha de 15 e um filho de 13. Os exemplos masculinos para o meu filho são o pessoal do movimento, do tráfico, os milicianos, e a polícia que entra na comunidade atirando. O único bom exemplo masculino que o meu filho tem é o de Jesus. Através do pastor. É por isso que o meu filho acorda cedo, toma banho, estuda. Pelo exemplo de Jesus.”
96% dos brasileiros dizem acreditar que Deus está no comando da sua vida, está por trás de tudo que acontece e é onipresente. Faço parte da minoria de 4% que acredita que é responsável pelas besteiras que faz, estamos um pouco a frente dos ruivos, que são 1% por cento, e bem atrás dos canhotos, que são 10%.
86% das pessoas afirmam que a fé vale mais que a ciência, isso talvez explique que o Brasil tenha 450 mil leitos hospitalares e 580 mil igrejas, templos, terreiros, sinagogas.
Discutir a existência ou não de Deus é a mais antiga das questões inúteis, nem uma nem outra pode ser provada. Para mim a melhor resposta é a de Buda: isso não interessa. Nós existimos, a natureza existe, Deus é uma palavra.
O cineasta Pier Paolo Paolini, um marxista ateu, escreveu: “Há duas coisas certas: 1 - Uma filosofia ateia não exclui o respeito a religião. 2 - Uma filosofia ateia não é a única filosofia possível do marxismo.
O que todas as religiões têm em comum são as orações, quase sempre em forma poética. As religiões, que acompanham os humanos desde sempre, em todos os lugares, são uma forma poética e simbólica de filosofia. Desprezá-las é preconceito e ignorância.
- Pergunta sem resposta: porque o PT, que cresceu nas comunidades eclesiais de base e nas igrejas, se afastou das igrejas quando elas se tornaram evangélicas?
O “empreendedorismo monetarista” prega que cada um seja o “empreendedor de si mesmo”: trabalhar sem patrão, sem direitos e sem obrigações trabalhistas, fazer o próprio horário, ganhar o próprio dinheiro, precariedade com autonomia. O governo tentou assegurar direitos para os motoboys, a maioria foi contra. “O melhor governo é o que menos governa”.
- Pergunta sem resposta: Como é possível que aqueles que mais precisam do governo, queiram menos governo?
“O “militarismo policial”, o apoio as políticas de lei e ordem e ao uso extrajudicial da força, assume significados diferentes em diferentes classes sociais. Para quem vive em regiões conflagradas pela criminalidade, a aspiração por violência estatal irrestrita pressupõe uma demarcação clara entre quem é “trabalhador” ou “bandido” dentro da comunidade, ainda que admita o risco de algumas vítimas inocentes entre os dois. Já para quem mora em regiões nobres, o sentido do policiamento é protegê-los dos pobres: sua segurança importa mais que garantir que apenas “bandidos” sofram com a repressão policial.”
Lula tirou o Brasil do mapa da fome. A extrema-direita botou outra vez o Brasil no mapa da fome. Lula tirou outra vez o Brasil do mapa da fome. Mesmo assim, o fascismo pode voltar ao poder pelo voto.
Nós, a esquerda, estamos sem utopia. Sem utopia, não dá para fazer política, não dá para viver.
Isso se deu, em parte, porque não entendemos o que representa, para a maioria da população, a fé, o país, a família.
Qualquer que seja a utopia que quisermos inventar para o Brasil, ela passa pela segunda abolição da escravatura e pelo combate efetivo a nossa criminosa desigualdade.
Eduardo Galeano em ‘Las palabras andantes” cita o cineasta e poeta argentino Fernando Birri, que assim define a Utopia:
“Ela está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
(c) Jorge Furtado Porto Alegre, 08.04.26
Bibliografia
- Birri, Fernando (in As palavras andantes, de Eduardo Galeano)
- Cândido, Antonio. Entrevista à Revista Boitempo
- Canetti, Elias. A consciência das palavras
- Carroll, Lewis. Alice através do espelho
- Claeys, Gregory. Utopia, a história de uma ideia
- Costa, Sergio. Desiguais e Divididos
- Da Empoli, Giuliano. Engenheiros do Caos
- Eribon, Didier. Retorno a Reims
- Feltran, Gabriel. Do transe à vertigem
- Gerbaudo, Paolo. O Grande Recuo
- Hobbes, Thomas. Leviatã
- More, Thomas. Utopia.
- Nabuco, Joaquim. Minha formação
- Nunes, Rodrigo. Do transe à vertigem
- Pasolini, Pier Paolo. Temoignage Chrétien, 23.09.1965
- Rees, Laurence. Holocausto, uma nova história
- Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas
- Souza, Jessé. Por que a esquerda morreu?
- Vonnegut, Kurt. Um homem sem pátria
- Wilde, Oscar. A alma do homem sob o socialismo
