Somos todos personagens de ficção! (por Anthony Lessa)

SOMOS TODOS PERSONAGENS DE FICÇÃO!

/ Texto escrito por Anthony Lessa no âmbito da disciplina “Estética 3: Filosofia e cinema”, ministrada pelo professor Patrick Pessoa no curso de graduação em Filosofia da Universidade Federal Fluminense.

“A vida é como uma topografia. Há picos de felicidade e sucessos, pequenos campos da chata rotina e vales de frustrações e fracassos…”

Calvin e Haroldo.

Em Saneamento Básico, filme de 2007 que acabo de assistir, encontramos a história de personagens de uma pequena cidade que estão reunidos para fazer uma petição à prefeitura pela construção de uma fossa, uma reivindicação de saúde pública. Descobrem, porém, que a prefeitura entende a necessidade, mas não possui verba para a obra. Em compensação, dispõe de recursos para financiar a produção de um filme de ficção.

Brecht fala sobre o teatro do cotidiano, sobre a improvisação teatral variada e anônima que acontece diariamente na vida. Fala também sobre os personagens de ficção que representamos socialmente, personagens criados por nossas autonarrativas ou pelos papéis que nos são impostos e nos quais acabamos acreditando.

-- “Você tem cara de Joaquim.”

No final, a personagem Suelen, interpretada por Camila Pitanga, diz:

-- “Eu não sou Suelen. Eu sou Silene.”

Ficção dentro de ficção.

Assistimos a todos aqueles personagens vivendo seus microdramas: vizinhos velhos que implicam uns com os outros como forma possível de comunicação e afeto; um casamento frustrado que vai se reajustando enquanto tentam produzir um filme; um namoro de interesse que se abre para outras possibilidades afetivas; uma filha buscando a aprovação do pai; um pai frustrado que enfrenta a velhice e os problemas de uma cidade que não conseguem resolver.

O roteiro do filme é brilhante.

Desde o início, vemos um casal brigando por banalidades: a baliza do carro, quem deve dirigir, a faculdade ou uma micose. Tudo vira subtexto. Nada é apenas aquilo que aparenta ser.

Assim, prendi-me às cenas, à busca daqueles atores profissionais interpretando personagens que, por sua vez, interpretam atores amadores, transformando-se em produtores culturais.

A pergunta permanece durante todo o filme:

--Ficção é o quê?

A própria obra pergunta para depois responder. Ou talvez deixe a dúvida como resposta.

Ficção é mentira? Fraude? Quimera?

Como escreve Alex Castro, no livro Mentiras reunidas:

“A verdade é que tudo é mentira, a mentira é que nada é verdade.”

Em Saneamento Básico, tudo é ficção e, ao mesmo tempo, nada deixa de ser realidade: a produção da cultura, a política, os preconceitos, as delícias e o sofrimento de trabalhar com arte.

-- Enfim, um filme educativo que não é chato.

Assisti não apenas a uma comédia, embora ela seja uma excelente comédia. Assisti a uma aula de roteiro, de teatro, de cinema e de interpretação. Mais do que isso, assisti a uma aula sobre como seres biopsicossociais não realizam nada sozinhos. É no coletivo que construímos as coisas.

Vivemos grudados aos nossos pequenos dramas na superfície de uma rocha flutuando em volta de uma fogueira nuclear, mergulhados em um poço gravitacional sem fundo, e ainda assim consideramos isso normal. O que apenas demonstra o quanto nossas percepções da realidade podem ser absurdas.

No fim do filme, a fossa não é construída. O filme, porém, torna-se um sucesso.

Fiquei pensando nesse papel do artista: talvez ele não construa diretamente aquilo que deseja transformar. Talvez sua função seja produzir deslocamentos, criar perguntas, provocar encontros. A arte, antes de entregar respostas, fabrica novas maneiras de olhar.

Percebi, então, que esta crítica também é uma personagem de ficção. É um texto sobre um filme de ficção, escrito por alguém que também interpreta papéis na vida.

Assim como os personagens descobrem, quase por acaso, como produzir um filme, também fui descobrindo, enquanto escrevia, como produzir esta crítica. Talvez ela não sirva para nada além de uma nota na faculdade. Mas, como artista, espero que ela produza novos olhares ou desperte em alguém a vontade de assistir à obra.

Se você ainda não viu o filme, caro leitor, desejo que sinta essa curiosidade.

Foi um excelente filme. Recomendo.

Post scriptum

Quando cheguei em casa ontem continuei pensando no filme e a noite o reassisti. Acho que na primeira vez eu estava tão preso na brincadeira da metalinguagem, de um filme sobre pessoas fazendo um filme, que deixei passar uma coisa que agora me parece óbvia.

Todo mundo termina melhor do que começou.

O casal parece se entender um pouco mais. A filha encontra um caminho para se aproximar do pai. Os vizinhos brigam menos. Até quem nunca imaginou fazer cinema descobre que consegue criar alguma coisa. Quase todos encontram alguma pequena transformação.

Mas a fossa continua sem existir.

E foi aí que o filme me pegou de verdade.

Passei quase duas horas vendo pessoas resolverem seus problemas pessoais e, no final, o problema que colocou todos eles em movimento continua exatamente onde estava.

Achei isso muito brasileiro.

A arte mudou aquelas pessoas, mas não resolveu o saneamento. O filme aproximou vizinhos, criou amizades, despertou talentos, fez gente descobrir que podia atuar, dirigir, escrever e imaginar. Só que nenhuma dessas coisas construiu a fossa.

Talvez essa seja a maior crítica do filme. A cultura consegue transformar pessoas. Política pública deveria transformar a realidade. Uma não substitui a outra.

No fim, todos parecem ganhar alguma coisa. A cidade, não.

Isso me fez pensar que, às vezes, comemoramos pequenas vitórias individuais enquanto o problema coletivo continua esperando alguém resolver. É um final feliz… mas só até certo ponto. E achei isso tão inteligente. Se a prefeitura tivesse simplesmente construído a fossa, não existiria o filme dentro do filme. Aquela experiência artística nasceu porque faltou uma política pública.

É estranho pensar nisso. Uma coisa boa nasceu de uma coisa errada. Mas isso não faz o erro deixar de existir. Acho que é por isso que o filme continua tão atual. Ele não fala só de cinema. Fala de um país que aprendeu a improvisar soluções criativas para problemas que nunca deveriam precisar de improviso.