Uma declaração de amor à Assistência de Direção (por Laura Mansur)

(por Laura Mansur)

há algum tempo, lili bandeira me convidou para dar uma master class na spcine sobre assistência de direção. fiquei feliz, adoro falar sobre esse assunto. online, duas horas.

durante muitos dias, acreditei que faria uma conversa com 20, talvez 30 pessoas. tava tranquila. mas na véspera, quando recebi o link para o zoom, recebi também o número de pessoas inscritas até então: 259. fiquei em choque e comecei a repensar. acordei às 5h30 da manhã e escrevi um texto para ler.

declamei o texto. nem eu sabia que o verbo era esse, mas recebi mensagem de uma pessoa que participou dizendo “eu também declamo poesia” e me dei conta do que tinha acontecido. foi bem emocionante.

envio aqui para vocês o texto, em forma de agradecimento por todo esse tempo fazendo cinema junto. esse ano completei 44 anos e 22 anos desde meu primeiro longa, meu tio matou um cara, quando fiz 22 anos no set. metade da minha vida fazendo cinema com vocês. que alegria, que honra, que privilégio.

beijos e saudades,
laura


UMA DECLARAÇÃO DE AMOR À ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO
por Laura Mansur

Boa noite,

queria começar agradecendo a presença de todas as pessoas aqui, numa 6a-feira à noite. Agradeço à Spcine pelo convite e pela oportunidade de falar sobre assistência de direção em um espaço de formação. Quero agradecer à Lili Bandeira, pela ponte com a spcine, pelo convite e confiança. Agradeço aos meus filhos, por crescerem compreendendo o meu amor e minha dedicação, mesmo que isso signifique não estar presente com eles durante longos tempos, por escolher fazer cinema e me aventurar neste fazer. Agradeço à minha mãe, meu pai e minha irmã, minha rede de apoio incansável. Agradeço à Casa de Cinema de Porto Alegre e toda equipe que lá construímos, por serem minha escola, minha casa, meu chão de cinema. Agradeço à todas as pessoas que caminham comigo nessa estrada do fazer cinema, com quem construo e experimento a assistência de direção.

Peço licença pra estar com vocês no espaço onde vocês estiverem, imagino que em suas casas. Vocês estão comigo na minha cozinha, meu lugar preferido da casa, e certamente um lugar de convívio íntimo. Que bom estarmos aqui hoje.

Desde que recebi o convite para essa fala, pensei em muitas possibilidades de caminhos, e do primeiro passo eu sempre tive certeza: no início, pedir para que todas as pessoas se apresentassem, dizendo seu nome e sua relação com o cinema - se faz, se assiste, se sonha fazer. Pois ontem, quando Maria Clara, aqui da organização, me mandou email com o link, me contou que até então eram 259 pessoas inscritas. Duzentas e cinquenta e nove. Meu planejamento virou de cabeça pra baixo. Foi preciso recalcular a rota, sem nunca ter navegado nestas condições: uma fala online para um tanto de pessoas que não consigo ver em conjunto, que não consigo aprender os nomes. Compartilho com vocês minha surpresa ao saber que duzentas e cinquenta e nove pessoas escolheram me ouvir falar sobre assistência de direção em uma 6a-feira à noite. Algumas devem ter desistido no meio do caminho, mas acreditaram que seria uma boa opção de programa e isso já é muito. To nervosa e honrada, extremamente honrada. Quero também pedir desculpas por não ser possível hoje a troca com o mínimo da relação, que é sabermos nossos nomes.

Depois da notícia do tamanho da nossa equipe hoje aqui, resolvi inaugurar um movimento, algo que nunca fiz: escrever um texto e ler. Vocês estão comigo nessa travessia para mim inédita. Obrigada. Talvez no meio do caminho eu mude a rota e largue o papel. Tudo bem. Fazer assistência de direção é assim, a gente planeja, acredita no planejado, busca os instrumentos necessários para realizar o planejado, e, ao mesmo tempo, estamos vivas para mudar o planejamento.

Sou uma mulher de quarenta e quatro anos, mãe de dois, branca, nascida em Porto Alegre e crescida em São Paulo, onde moro hoje em dia. Falo desse lugar. Usarei aqui o coletivo e também as nomenclaturas das funções no gênero feminino, pois gosto da idéia de nos acostumarmos com essa possibilidade. Homens, vocês parte do coletivo e dos exemplos, mesmo que com terminação em a.

Organizei o pensamento em quatro eixos espiralares: desenho, dança, tempo e equipe. A idéia é não me alongar, para que tenhamos bastante tempo de conversa. Separei também arquivos para mostrar exemplos de documentos que uso no trabalho, caso isso seja um desejo de vocês. Vamos juntas.

DESENHO

Gosto de pensar a assistência de direção como o ato de desenhar. Podemos desenhar com lápis grafite, canetinha, tinta guache, aquarela, tinta à óleo, spray, tintas naturais. Podemos desenhar em papel, na areia, em uma tela, em um tecido, na parede, no barro. Tem desenho abstrato, desenho de observação, história em quadrinhos, colagem. Podemos misturar tudo isso. São infinitas as possibilidades de combinação.

Como assistente de direção, nosso ofício é trabalhar a partir do que o projeto pede, buscar compreender quais ferramentas, materiais e estruturas precisamos para colocar aquela história no mundo a partir do olhar da direção, com a composição da equipe e com os recursos existentes.

Quando chego em um projeto de filme, muitas vezes antes da pré-produção, começo um processo que durará até o fim das filmagens: compreender e descobrir como vamos contar aquela história. Não é imaginar como eu contaria. Para traçar o planejamento de uma filmagem, para desenhar, precisamos escutar e investigar a imaginação da direção. E, junto com a direção, compreender a estrutura da produção, o ouvido do som, a construção da arte e o olhar da fotografia.

Vamos à prática:

Primeiro, vem a mensagem tão esperada: oi querida, tudo bem? Queria saber como ta tua agenda. Idealmente, isso acontece antes da pré começar e quando você está com a agenda livre. É um convite para fazermos uma análise técnica e um plano de filmagem do roteiro existente, e indicarmos para a produção quanto tempo aquela história precisa para ser contada e quais questões levar em consideração. Faço uma primeira leitura de roteiro, vou anotando dúvidas e grifando os cabeçalhos e as personagens. A partir dos cabeçalhos e das personagens, temos o básico da estrutura que precisaremos levantar: locações e elenco. A partir dos cabeçalhos também podemos enxergar no projeto a quantidade de externas e internas, e a quantidade de cenas dia e cenas noite. Ou, o que muitas vezes acontece nesse primeiro momento: a quantidade de amanheceres e de entardeceres que a roteirista desejou. Elas sempre imaginam a cena na luz mais bonita. O que mais anotar? Depende de cada projeto. Nesse primeiro momento, que chamo de análise técnica estrutural, procuro compreender quais as grandes questões para aquela história ser contada e para o orçamento: se animais, se figuração, se efeitos especiais, se direitos autorais de músicas ou de obras de artes plásticas. São infinitas as possibilidades, e depende de cada projeto. Para isso, é fundamental que o roteiro nos entregue as informações de cada cena: quem está na cena, o que está fazendo, onde está e em que momento do dia a cena acontece.

Depois desse estudo, marco um encontro com a direção para tirar dúvidas e ouvi-la sobre o roteiro, a história, as referências, os sonhos, os desejos, as dúvidas. Depois dessa conversa, faço o que chamo de estudo de plano de filmagem. Gosto de deixar registrado que é um estudo. Compartilho esse estudo primeiro apenas com a direção, antes de chegar na produção. Conversamos, coloco meus pensamentos para a construção lógica das diárias, uma imaginação dos tempos, ainda pensando somente em períodos - de manhã faz isso, de tarde faz aquilo. Com a escuta atenta, vamos imaginando juntas quais as cenas mais delicadas e/ou complexas para garantir mais tempo e quais os desafios. Mexo no documento e compartilho com a produção, entregando um estudo com as seguintes informações: para esse roteiro, temos tantas locações, tantas personagens, tais e tais questões para cuidar com atenção, e o estudo de plano tem x diárias. Estes instrumentos garantem à produção um orçamento baseado em fatos reais.

Segundo momento: início, ou quase início da pré.

Agora, já temos uma equipe mais estruturada: direção, produção, foto e arte. O som, infelizmente, na nossa estrutura de cinema, raramente chega junto nesse momento. Talvez a produção e a direção já tenham encontrado algumas locações principais. Talvez já tenham convidado parte do elenco. Para começar uma pré, é indicado que tenhamos estas partes levantadas. O que chamamos de pré-pré, ou soft-pré, é esta organização prévia, para que quando a equipe chegue, já tenhamos o terreno onde pisar.

Aqui, provavelmente é tempo de re-alimentar a análise técnica e repensar o estudo de plano de filmagem, que aos poucos vai deixar de se chamar estudo. Pensando bem, é sempre tempo de realimentar a análise técnica e repensar o plano de filmagem. Vamos até o fim das filmagens fazendo esse movimento.

Como se faz uma análise técnica e um plano de filmagem? Depende do projeto. Não há uma receita, um modelo fixo e ideal. Cada projeto vai pedir um tipo de categorias para a análise técnica, cada projeto vai pedir um tipo de organização para o plano de filmagem.

Na analise técnica, organizamos e classificamos tudo em categorias. Crio estas categorias de acordo com o projeto. Muitas são comuns em um filme de ficção, mas não há uma lista pronta e fixa que eu possa passar para vocês. Já fiz filme que tinha 5 categorias de elenco: principal, coadjuvante, apoio, participação especial e convidada. Já fiz filme que tinha 5 categorias dentro dos efeitos especiais: feitos na pós, feitos no set pela contra-regra, feitos no set pela pessoa da pós, uma parte no set outra na pós, feito no set por uma equipe especializada. Já fiz filmes com categorias diversas de imagens de cena: imagens de arquivo, imagens que precisavam ser produzidas na pré, que precisavam ser criadas na pós, que precisavam ser filmadas para depois serem inseridas em pós.

Dá pra saber que precisaremos de todas essas categorias na primeira leitura do roteiro? Não. É caminhando que vamos descobrindo o projeto e as suas necessidades específicas, suas características e a melhor maneira de organizá-las. É desenhando que vamos compreendendo os passos. O que é importante e fundamental é que a organização e a classificação seja feita de forma lógica e comunicativa. Elenco, por exemplo, costumo combinar com a produção executiva quais serão as categorias, pois muitas vezes é uma questão contratual se apoio, coadjuvante, participação ou convidada. Considero também a questão emocional dessa categorização. No filme dos efeitos, que era um filme de terror, fomos ao longo de muitas reuniões destrinchando quem faria o que e como, até eu chegar nas 5 categorias, e apresentá-las como proposta de organização em uma reunião com todas as pessoas envolvidas nesse assunto.

Ando sempre com um caderninho. Hoje em dia, me digitalizei, e uso um tablet com caneta, pois lá consigo ter caderno, escrever e também colar fotografias. Alguém falou uma ideia, uma necessidade, uma dúvida, anoto. Depois, é preciso saber onde registrar essa necessidade, essa idéia, essa dúvida, e para quais departamentos encaminhar. Muitas vezes essas anotações viram emails, e também vão para a análise técnica. Sou ainda adepta dos emails. Entendo a facilidade do whastapp, mas entendo também que as mensagens por lá se perdem. Por email está registrado e mais fácil de buscar a informação. Cuido para que o título do email, além do nome do filme, tenha as palavras chave caso precise buscar um assunto. “Amefricana - datas de elenco - plano de filmagem 05/ junho” ou “SC - comidas de cena - restrições do elenco”. Muitas vezes mando por email e mando uma mensagem dizendo “mandei por email isso e aquilo”.

Cuido também com o título dos arquivos, para que tenham sempre o nome do filme, o assunto e a data. É muito importante que tenha data. Como o plano de filmagem é um organismo vivo, e a análise técnica está sendo constantemente alimentada, sempre que mexemos uma peça, mexe também uma data, uma lista, uma informação.

Listas! Fazemos muitas listas! Fazemos listas de cada categoria da análise técnica - também com as várias possibilidades de organização: por ordem do roteiro, por ordem da filmagem (com o plano que está valendo naquele momento), por ordem alfabética, agrupado por personagens, agrupado por locação, agrupado por cidade, agrupado por dia e noite, por externa e interna, etc.

Meu grande aliado nesta documentação é o programa moviemagic. É lá que alimento a análise técnica e faço a diagramação das listas e do plano de filmagem. É para lá que vão todas as informações do roteiro e da decupagem, e é de lá que sai a ordem do dia, da qual falarei mais tarde. Não é necessário ter moviemagic para fazer assistência de direção. Se você tiver papel e caneta, é possível fazer. Depende do projeto.

O que é comum e importante é que as listas sejam feitas com diagramação lógica e comunicativa, para que quem vá ler compreenda qual o critério da organização. Que na lista tenha registrada a data em que foi emitida e qual a versão de roteiro e versão do plano de filmagem em que ela está baseada.

O plano de filmagem é meu quebra-cabeças predileto. E eu gosto de um quebra-cabeças. Na pandemia fiz parte de um grupo de trocas. Monta, desmonta, passa adiante, pega com alguém um que você nunca montou. Assim é o plano de filmagem. É sempre um quebra-cabeças que você nunca montou.

Organizar a ordem das cenas é tarefa complexa, que exige lógica e também sentimento, emoção. Tem filme que o que vai guiar é a disponibilidade do elenco. Tem filme que o que nos guia são as locações e os deslocamentos. No filme Sem Coração, a grande guia era a lua e as marés - um plano de filmagem inteiro pensando a partir desse movimento da natureza. Conforme caminhamos com o projeto, compreendemos os eixos estruturais que nos guiam para a montagem do plano de filmagem. E conforme estes eixos, estruturamos a diagramação do plano. Para organizar o plano, faço uma seleção de algumas informações de cada cena: o número da cena, o set onde ela acontece, quem está nela, e o que mais me parecer necessário para o pensamento da construção: número de páginas, número de planos, quantidade de figuração, veículos, animais, se tem elenco menor de idade. Depende de cada projeto.

Minha mãe Miguelina, também fã de quebra-cabeças, gosta sempre de começar pelas “retinhas”, pelo contorno. Mas tenho um quebra-cabeças de planetas, que o contorno é todo super escuro, e a melhor maneira que encontramos foi começar pelos planetas e depois ir juntando com o espaço. Minha prima Luciana, outra fã de quebra-cabeças, separa todas as peças antes, e depois começa a montar. Minha prima Luiza olha uma peça e fica procurando o lugar dela. Eu normalmente gosto de olhar pro todo e depois olhar para as peças reconhecendo suas individualidades para encontrar o lugar de cada uma. E ainda tem minha tia, a titia, que fica só na nossa volta olhando, e sua presença é importante também. Quando a gente se junta para montar um quebra-cabeças, reconhecemos nossas individualidades, o jeito de cada uma pensar, e nos adequamos enquanto equipe. E vamos aos poucos entendendo também a melhor maneira de seguirmos juntas no desafio, na construção. Assim é a construção do plano de filmagem. Não tem regra. Tem raciocínio lógico, tem jeitos variados de pensar e de enxergar as peças, tem muitos caminhos possíveis para a montagem do quebra-cabeça, tem equipe. Apesar de ser nosso trabalho como assistentes de direção, é uma construção que depende do e envolve o coletivo. E, diferente de um quebra-cabeças desses que vêm em caixas mostrando a imagem final, o plano de filmagem só tem imagem final quando terminamos de filmar. Costumo dizer que é um organismo vivo, vivo como as marés.

Além das questões práticas de possibilidades reais de elenco, locação, sol, maré, montagem de cenário ou qualquer outro quesito, gosto de pensar com carinho e emoção em como começar e como terminar as filmagens. Qual será a primeira cena que construiremos como equipe. Qual será a última cena com a qual encerraremos a travessia da filmagem e comemoraremos nos abraçando. Considero o que fazer no início da semana, voltando da folga, e também o que fazer mais para o fim, já mais cansados. Presto atenção na primeira cena de cada atriz e ator que chega. No meu primeiro longa como 1AD, já estávamos filmando há 1 mês e uma atriz chegou para sua primeira diária. Ela nunca tinha feito cinema. A primeira cena dela foi um super close, ela descobrindo que a filha criança tinha sumido. Não me dei conta que, apesar de nós já estarmos há 1 mês nas filmagens, era um primeiro dia, uma primeira vez para ela. Só à noite, já no bar tomando cerveja, ela comentou comigo, rindo, para a minha sorte. “Pô, laura, minha estreia no cinema, e a câmera grudada da minha cara. Tua filha sumiu. Vai.”. Rimos. E eu aprendi que precisava prestar atenção nos caminhos de cada pessoa e ter esse cuidado.

Alguns outros cuidados que tenho:

-- não começar filmando cenas que, se precisar, por algum motivo, podem ser cortadas. Gosto de começar dando corpo ao filme, enxergando a história;

-- observar as relações entre as personagens, e imaginar quais as melhores cenas para começar a relação entre o elenco;

-- se possível, não deixar para o fim do dia uma cena muito difícil;

-- se possível, não deixar para o fim as externas que, se chover, não podem ser filmadas;

-- cuidar das energias de cada cena do dia, de onde para onde a atriz vai (exemplo: uma cena de briga e outra muito contente em um mesmo dia, pode ser bom, mas pode ser difícil);

-- cenas de banho e cabelo que molha: de preferência no fim do dia daquela pessoa, para não precisar voltar para o cabelo seco;

-- cenas de intimidade: fazer com cuidado, com equipe reduzidíssima no set, com vídeo assiste desligado e, de preferência, se tiver mulher no elenco, só com mulheres no set.

Durante uma pré-produção, faço muitas versões de plano de filmagem. Procuro não encaminhar para a equipe todas elas. Envio sempre que há uma mudança que considero necessário registrar e oficializar. Quando a mudança é pontual, coloco no corpo do email o que mudou. Por exemplo: dias 3 e 4 foram invertidos. O que era dia 5 de tarde, agora será dia 7 de manhã. A cena x que filmaríamos na rua, agora acontecerá no quintal da casa.

Durante a filmagem, o plano também muda. É fundamental deixar a equipe sempre informada de todas as mudanças do plano de filmagem.

Enxergo tudo isso como a prática de desenhar. Faço esse trabalho da organização e da comunicação estudando o espaço que temos, escolhendo e experimentando quais materiais usar, inventando traços. Experimentando linguagens, lógicas e ocupações do espaço. Traçando o risco e correndo o risco.

Essa tirinha da Laerte me pegou e mandei por mensagem para algumas amigas. Uma delas, Julia Braga, grande parceria de aventuras de cinema, me respondeu: tu corre, pedala e rema o risco. Adorei a ideia de experimentar tantos outros verbos, tantas outras ações uma vez o risco traçado: remar o risco, pedalar o risco, respirar o risco, navegar o risco, rir com o risco, mergulhar no risco, compartilhar o risco, filmar o risco, dançar o risco. São infinitas as possibilidades. E, no cinema, a caminhada com o risco é coletiva.

DANÇA

Pensar em movimento

No podcast blecaute, Grace Passô, uma artista que admiro bastante, ao final de 2 horas de entrevista responde à difícil pergunta: qual conselho você daria para uma menina que está começando? Ela pensa, ficamos um tempo em silêncio com ela. Dance. Foi uma grande surpresa pra mim. Me emocionei. Dance. Quando a gente dança, a gente exercita pensar em movimento, ela concluiu. Assim como a tirinha da Laerte, essa idéia do pensar em movimento também me pegou (e também compartilhei o podcast com algumas amigas). Estar no set como assistente de direção é pensar em movimento. Se me perguntarem como gosto de fazer assistência de direção, como gosto de ser assistem de direção, posso dizer agora, com essa inspiração, que é dançando.

A junção da análise técnica com o plano de filmagem é a ordem do dia, também chamada de OD. Um documento oficial de comunicação com a equipe. Lá precisamos encontrar tudo o que acontecerá em cada dia: quem como onde e quando.

De um lado, todas as cenas que serão filmadas e a análise técnica de cada cena (alimentada durante toda a pré). Se por acaso chega no set e algo não está lá, a primeira coisa que faço é correr para a ordem do dia e confirmar se a informação estava lá. Claro que não basta colocar na OD sem comunicar antes as equipes responsáveis. A OD não pode ser uma novidade, nem uma surpresa para ninguém. Ela é uma memória de tudo o que já planejamos e combinamos.

Do outro lado da folha, endereços, horários, nomes e avisos. Horário da diária (no máximo 12 horas, estamos em busca da jornada justa), horário do café da manhã (15 a 20 minutos), local do ponto de encontro para irmos para a locação, local do camarim, local da alimentação, local da base, local de cada cena, endereço do hospital mais próximo, telefones de algumas pessoas da produção e das assistentes de direção, previsão do tempo, horário de preparação e filmagem de cada cena, horário de chegada e de saída do elenco, da figuração e da equipe extra, o que acontece em cada cena, quem ta em cada cena, horário do almoço (sempre 1h, e com um intervalo de no máximo 6h depois do café da manhã), horário de corta a câmera, tempo de desprodução, e avisos específicos de cada diária. Tudo isso escrito e diagramado de forma clara, lógica e comunicativa, para que a equipe encontre as informações, compreenda a proposta de organização e planejamento.

A equipe precisa ler e confiar na ordem do dia. Em um longa de ficção, a segunda assistente de direção é quem faz a ordem do dia. Ela é feita de manhã, eu olho na hora do almoço, a produção olha também, e então enviamos uma prévia para algumas pessoas específicas da equipe. A 2AD confere com cada departamento tudo o que deve acontecer na próxima diária, sem pressupor que já está dito ou entendido. Ao final do dia, enviamos para todas as pessoas da equipe a ordem do dia seguinte.

Quando tava fazendo Sem Coração, um longa que gosto muito de ter feito, eu tinha que estudar as marés. Durante todos os dias de pré, acordava cedo, olhava a tábua de maré no aplicativo do celular e também uma de papel que consegui, e ia caminhar na praia para olhar o mar. Passava diariamente por um grupo de pescadores e trocávamos um “bom dia”. Um dia passei por eles e, estranhando o comportamento do mar em relação aos meus estudos, perguntei “a maré ta morta, não tá?”. “Ta”, me respondeu um sem parar o que tava fazendo. “Mas ontem o mar tava calmo, hoje ta tão agitado…”. Ele parou, me olhou, e respondeu: “tem o vento, né mulher?”. Fui pra casa com essa, que ainda hoje reverbera. A ordem do dia nos guia. E tem o vento. E junto com ele, tem o tempo.

TEMPO

Tudo com tempo tem tempo - ouvi essa frase sábia da minha amiga e parceira de cinema Viviane Ferreira, frase que ouvia da sua avó, que por sua vez ouvia da sua bisavó. Tudo com tempo tem tempo.

E quanto tempo tem o tempo? Só o tempo sabe o tempo que o tempo tem.

Quando vemos um filme na tela, podemos enxergar o trabalho de atuação, da fotografia, da arte, da montagem, do roteiro, da direção. Da assistência de direção, é impossível. Nosso material de trabalho é o tempo. Um material tão concreto quanto abstrato. Um material vivo, que precisamos controlar e também compreender que tem vida própria.

No set, uso sempre um relógio de pulso. Basta um canto de olho e sei do tempo. Às vezes olho discretamente. Outras vezes ainda só aponto o relógio, e com isso indico para a outra pessoa que precisamos cuidar do tempo. Outras, olhar o relógio é também mostrar para a equipe que estamos olhando para o tempo. Se eu visse as horas no celular, ninguém saberia que é para isso que estou olhando.

Também não sei dizer para vocês uma receita de como cuidar do tempo. Ele é sensível. Algumas vezes, conseguimos apertar. Outras, precisamos deixar acontecer e depois correr atrás, pensar o que fazer, ou o que não fazer. Pensar em movimento. Nesse caso, não depende só do projeto, depende também do que está acontecendo. Nossa tarefa não deve ser apenas cumprir um plano de filmagem, cumprir uma ordem do dia. Ela é organizar o trabalho da equipe, coordenar de maneira ativa e cuidadosa, criar espaço e tempo olhando para o que está acontecendo, no movimento contínuo de compreensão e descoberta de como contar aquela história da melhor maneira possível.

E, se o material de trabalho é o tempo, podemos dizer que nossa ferramenta é a comunicação.

Na pré, organizamos os dias em encontros, reuniões, decisões, visitas às locações, ensaios com elenco, testes do que precisa ser testado, provas de figurino, de maquiagem, decupagens e mais reuniões. Fazemos as perguntas mais óbvias para a direção e também para os departamentos.

Se não tivermos tempo para decupar todo o roteiro, é sábio escolher algumas cenas para decupar e descobrir as necessidades dela. Uma boa ideia na pré pode ser fácil de viabilizar. Uma boa ideia na filmagem, nem sempre pode ser viabilizada. Tem diretora que gosta de decupar sozinha e compartilha a decupagem depois de pronta. Tem diretora que gosta de reunir com a fotografia e decupar, depois compartilham. Tem diretora que gosta de reunir com foto, arte, continuidade e assistente de direção. E tem ainda aquelas que não gostam de decupar. São jeitos de trabalhar. Sao infinitas as possibilidades, e depende de cada diretora e também de cada projeto.

Leio o roteiro cuidando de possíveis pegadinhas: uma cena só com diálogos sem descrição de ação. O que eles estão fazendo enquanto conversam? Pensar na pré que seria legal se eles estivessem comendo pipoca, é simples de resolver. Pensar na hora da filmagem, dependendo do momento e do lugar, pode ser mais difícil. Ou então cenas que indicam ações mas não descrevem: seguem conversando. Seguem conversando o que? Pensar e criar na pré esse diálogo provavelmente será mais tranquilo do que na hora da filmagem. Outra atenção é em relação ao tamanho da cena. Algumas vezes somos cobradas por uma produtividade de quantidade de páginas filmadas por dia. Mas cenas como “entra no seu carro e sai dirigindo pela cidade até chegar numa estradinha escura e deserta” ou “Sentam no sofá para assistir um filme. Começam a se beijar e transam” são cenas de 1/8 de página que provavelmente vão demandar bastante tempo para serem filmadas. É sempre bom investigar na pré a complexidade ou simplicidade de cada cena.

Na filmagem, nossos tempos são: horário de chegada, tempo do café da manhã, tempo de preparação da cena, tempo de ensaio e filmagem da cena, tempo de preparação da próxima cena, de de ensaio de filmagem, tempo de almoço, tempo de deslocamento, tempo de desprodução. Tempo de folga. Tempo do sol, se necessário. Tempo da maré, se necessário. Tempo de trabalho das crianças. Tempo para entrar e sair da locação. Tempo para repensar os tempos.

A gente planeja, mas não inventa nem impõe. Não posso decidir que tem 1 hora de montagem sem consultar todas as equipes se 1 hora de montagem é o suficiente para cada uma. Então, quanto mais conseguimos compreender o trabalho da outra pessoa, mais próximas chegamos de um planejamento bom para todas. E, mesmo que planejado a partir da consulta com todas as equipes, mesmo que estejamos todas de acordo com o tempo que pretendemos usar para preparar e/ ou para filmar uma cena, chega na hora de acontecer e o tempo é vivo. E tem o vento. Às vezes dá muito certo, outras nem tanto. E aí a gente dança, pensa em movimento, decide em coletivo pra onde seguir na encruzilhada.

A ordem da filmagem costumo estudar e propor para a direção, foto, arte e som. Gosto de fazer as cenas mais difíceis no primeiro período, antes da refeição. Nem sempre é possível. Dentro de cada cena, precisamos decidir também a ordem dos planos, das posições de câmera. Se há decupagem, gosto de fazer um mapa de câmera, gosto de desenhar. Como definir por onde começar? Depende. Na maioria das vezes, começar pelo fim da cena não é a melhor opção. Se há plano aberto, pode ser uma boa opção de primeiro plano, já enxerga a cena como um todo. Tem casos que o melhor é ensaiar só com os atores e depois trazer a câmera. Tem casos que o melhor é começar pelo plano mais complexo. Tem casos que o melhor é se guiar pela emoção da personagem, mesmo que isso demande um vai e volta de câmera. Tem casos que filma primeiro os planos com a parede falsa, depois os planos sem a parede. Tem casos que precisamos seguir o eixo de luz. Uma vez fizemos três diárias em uma loja de aquários e era tão difícil a montagem de luz por conta dos reflexos que filmamos as cenas divididas por eixo. Com esse fundo, cena a, b e c no dia 1. Com esse outro fundo, cena b, c e d no dia 2. Com esse terceiro fundo, cena a, c e d no dia 3. Parecia uma grande confusão, mas era uma organização gigante, e viva a continuísta.

Falei pouco do som, mas é audiovisual e disso não podemos esquecer. Gosto de usar conteque e ouvir o som da cena, e também o som que atrapalha a cena. Gosto de imaginar a montagem dos planos. Gosto de ouvir a direção quando conversa com elenco. Gosto de estar junto da produção na logística do set, da engrenagem. Gosto de ouvir a fotografia falando da montagem de luz e imaginar o tempo que vai levar. Gosto de inventar coisas com a arte. Não saio do set. Gosto de observar o trabalho de cada pessoa da equipe e aprender um pouquinho como é que se faz. E fico olhando meu relógio.

Desde que comecei a fazer assistência de direção (faz tempo, e já comecei no cinema nesta função), cresci com a primeira frase: tudo o que acontece em um set de filmagem é culpa do assistente de direção. Essa frase esta no único livro que conheci sobre o nosso trabalho, de um francês, Pierre Malfille. Não sei se hoje em dia há algum livro sobre assistência de direção no Brasil, desconheço. Até pouco tempo, eu gostava dessa frase, e conseguia rir dela, ou rir com ela. Conseguia compreendê-la pensando “preciso saber de tudo.” Mas, há algum tempo resolvi riscar a palavra culpa, e substituí-la pelo verbo transformar. E para quem a vai a culpa? Para ninguém. Enquanto assistente de direção, o que buscamos não é de quem é a culpa, ou de quem foi a culpa, mas quais as possibilidades de solução.

Costumo dizer que sou assistente de direção porque sou otimista e iludida. Ou pode ser que eu seja otimista e iludida porque sou assistente de direção. O fato é que mantenho a confiança e a esperança, mesmo no meio do caos e da confusão, mesmo quando não sei o que fazer. Respiro. Se precisar, respiro mais um pouco. Procuro manter a calma, para que reine a calma. Manter o bom humor, para que reine o bom humor. Nós, assistentes de direção, colocamos a energia do set. Não é preciso gritar para tocar um set com energia. É preciso se conhecer e olhar para a outra, as outras, respeitar e confiar. Trabalhamos com pessoas diferentes na direção, e portanto trabalhamos de jeitos diferentes. Não sou a mesma assistente de direção com a diretora A e com a diretora B. O nosso jeito de trabalhar também depende do projeto, da direção e da composição da equipe. Um tanto somos nós, outro tanto remamos conforme a dança. Dançamos conforme a maré. Desenhamos conforme o vento. Aumentamos o risco em movimento. Em todos os casos, é preciso confiar, respeitar e comunicar. Respeitamos a equipe. Confiamos na equipe e a equipe confia em nós. É essa a relação, é de troca, de caminhar junto.

EQUIPE

Como se faz assistência de direção? Depende do projeto.

Essa semana comecei as filmagens de um longa-metragem. Há alguns anos já que não perco mais o sono na véspera da primeira diária. Durmo. Durmo e sonho. Pois dessa vez sonhei que éramos muitas pessoas em uma lancha inflável e íamos atravessar um oceano. A lancha estava lotada, e eu não tinha certeza se tinha gasolina para chegar até nosso destino. A produção também sabia dessa questão da gasolina. E, juntas, decidimos confiar na travessia. Antes da lancha sair da margem, me dei conta de que não haviam coletes salva-vidas. Nenhum. Eu tava lá na ponta da lancha, teria que atravessar por cima de muitas pessoas para buscar coletes ou pedir para alguém. A gasolina pode até não ter o suficiente, daremos um jeito. Mas, de coletes, precisamos. Levantei e fui em busca dos coletes. Acordei antes da lancha sair rumo ao oceano e fui pra primeira diária de filmagem.

A segurança da equipe em um set de filmagem, aqui no brasil, é responsabilidade da produção. Uma vez me disseram que nos estados unidos também é da assistência de direção. Me sinto parte desse cuidado. Prezo pela segurança e bem estar da equipe. Como assistente de direção, estou atenta a cada pessoa da equipe - qual o seu trabalho, qual o seu jeito de trabalhar, qual o seu jeito de sorrir, de escutar e de falar. Qual o seu jeito de estar ali presente. Defendo a direção, defendo a história, a dramaturgia, o elenco, e também a equipe. Uma equipe segura, que sabe o que está fazendo, que está bem informada e bem alimentada, é uma equipe feliz. E isso vai para a tela.

Faço aula de dança com Janette Santiago, outra artista por quem tenho imensa admiração, e hoje tomando banho, pensando nessa fala, pensei na aula de dança como um set. São três musicistas tocando tambor ao vivo, cada um com seu toque. Somos muitas, fazemos uma mesma coreografia (que muda a cada aula), e, apesar de estarmos em uma mesma frequência, ouvindo a mesma música, cada corpo, ou cada corpa, como diz Janette, se move do seu jeito, carregando sua história, compartilhado a energia daquele momento em que estamos juntas. E cada vez que dançamos mais uma vez a coreografia, a música sai diferente e nossos movimentos também. Assim é o set.

Carlos Reichenbach, diretor de cinema com quem não trabalhei mas tive a oportunidade de ir ver uma diária de filmagem, dizia no primeiro dia de filmagem: a partir de hoje somos uma equipe, e até a última diária ninguém fala mal de ninguém. Gosto dessa ideia, desse princípio. Quando juntamos um grupo de pessoas e nos tornamos uma equipe, algo muito forte acontece. Somos muitas, cada uma no seu movimento, e o grande barato, o grande desafio, é que estejamos todas em sintonia contando uma mesma história. Contando uma história com muitas mãos, muitas vozes, corpos e ideias, com muitas necessidades, sonhos e desafios. Muitas vezes, na nossa realidade, com muitas restrições e faltas de orçamento. Contar em coro, dançar em equipe sem perder as individualidades. Para isso, nossa comunicação e nossa coordenação deve ser confiável e leve, com uma forma flexível, lógica e objetiva, sensível e agradável.

A pergunta que sempre ouço é: você não vai dirigir? Parei de responder que não, pois depois dos 40 tenho vontade de aprender e me aventurar em coisas que nunca fiz: remar, aprender capoeira, tocar um instrumento, nadar no mar, por que não dirigir? Mas durante muito tempo respondi convicta: não, eu amo ser assistente. Continuo respondendo a segunda parte: eu amo ser assistente de direção.

Gosto de brincar com a equipe imaginando uma troca de funções no set: que outra função você faria? Ninguém nunca falou “nenhuma outra”, todo mundo sempre gosta de se imaginar em outra função: faria alimentação, faria foco, maquiagem, figurino, contra-regra, seria elenco, seria figuração, seria a produtora executiva. Mas assistente de direção, arrisco dizer que nunca alguém me disse “eu faria a tua função”. De verdade, não consigo entender porque ninguém querer. É tão bom! Faço assistência de direção com muito, muito prazer. Acredito que o nome da função dê uma idéia equivocada, como se fazer assistência de direção fosse um passo para ser diretora. Não é. É um ofício em si. É um estar junto de maneira ativa, criativa e afetiva. Fazer assistência de direção é um exercício de coragem. Meu desejo como princípio-motor não é contar uma história minha. Meu tesão, meu frio na barriga, meu brilho nos olhos é quando alguém me diz “quero contar uma história” e eu posso responder “vamos, junto com a equipe, transformar o mundo para que contar essa história do jeito que tu sonha”. Para ser assistente de direção é preciso acreditar nos sonhos: nos nossos e nos das outras pessoas. São infinitas as possibilidades, e depende de cada projeto. Com tempo e vento, a mágica acontece.

laura mansur, 24 de julho de 2026