Por que a palavra palíndromo não é um palíndromo?

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Por que a palavra palíndromo não é um palíndromo? Pelo mesmo motivo que a palavra verbo não é um verbo, a palavra ofensa não é uma ofensa e, pensando bem, a palavra armário também não é um armário.


Colocar uma lista de palíndromos (especialmente em português) em ordem alfabética é um problema: o resultado em geral não faz juz à simetria que o palíndromo requer. Isso porque a nossa língua (assim como o espanhol e o italiano) herdou do latim vulgar a tendência histórica de eliminar consoantes finais ou de suavizar o som no final das palavras. Ou seja: a imensa maioria das palavras (e das frases) em português termina em vogal, ou então nas poucas consoantes que são permitidas no final: -s pros plurais, -r pros infinitivos, -l pra alguns adjetivos etc e pouco.

Não é assim em francês (club, avec, grand, chef, cinq) nem em alemão (Tag, ich, stark, Apfel), nem em inglês (dream, man, stop, car, ass, sex), muito menos em russo (gavarit, lev) ou polonês (marchew, stary, twarz).

Ora, os palíndromos, por definição, têm que começar com a mesma letra que terminam. Logo, palíndromos em português quase sempre também COMEÇAM com vogal.

Ainda assim, seria possível construir um abecedário palindrônimo lusófono, ou seja, uma lista de 26 frases começando e terminando com cada uma das letras?

Trapaceando um pouquinho, sempre dá. (E, se a polícia vier foder a minha família, eu troco o chefe da polícia, não é assim?)


A dignitária se mete, teme sair atingida.

Bípede parado, odara, pede PIB.

Cu para todos? É só dotar a PUC.

Dia D na Boêmia: dai-me o Band-aid.

Ela, barrete brocado da cor beterraba, lê.

Fia, né? Traz a fé e faz arte naif.

Gol bonito passa se pesas sapoti no blog.

Homens? Esses, nem o H!

Ia sair a tapas, à noite, tio, na sapataria? Sai!

Jr., online, sai do lema da melodia senil no RJ.

KO é agir banal? Lá na briga é OK?

Laico, se der, anota fato na rede social.

Mas lá vão: banais, na ânsia, na boa, valsam.

Nave de ET nem lar é, geralmente é de van.

O azar? Ótimo: se cito idiotices, omito razão.

Paradoxo retrô: passaporte roxo dá rap?

QI em ironia, aí no rim, é IQ.

Ralo, né, dar o rabo no bar? Ora, dê no lar!

Sem ir, crê: temo cometer crimes.

Te nanamos, e sono se soma na net.

Uiva, eco: vejo há dias a saída, hoje você a viu.

Vi homens aidéticos, só cite dias: nem o HIV.

We (nós) só comemos ovo, novo som e moços, só new.

Xi! Propaga pesos e paga por pix?

Yago: afro, órfão, gay.

Zarpa. E, mal o bar aparece, tecer a parábola me apraz.


Há mais semelhanças entre a palavra “palavra” e a palavra “coisa”
Do que entre a palavra e a coisa:
Palavra é palavra, seja “palavra” ou “coisa”,
Mas coisa é outra coisa.