Inventariar a ficção, inventar o documentário

[O documentarista holandês Joris Ivens (1898-1989), autor de “Uma história do vento” (1988).]

Texto de ontem no blog do Carlos Alberto Mattos começa assim:

“O documentário SOROS, dirigido pelo filho de Bob Dylan, inventaria grande parte da batalha de ideias em torno do megainvestidor e filantrocapitalista George Soros.”

Vontade de ver o filme, Carlinhos Mattos apresenta vários motivos pra isso (inclusive sobre o que o filme deixa de falar). Mas uma palavra ali no meio me puxa pra outro raciocínio.

“Inventaria” é presente do indicativo do verbo “inventariar”. Ou seja, Carlinhos tá dizendo que o filme cataloga, relaciona, lista fatos relativos ao seu biografado. Mas, na primeira leitura, me pareceu que era futuro do pretério de “inventar”: nesse caso, o filme estaria criando, fantasiando, idealizando esses mesmos fatos (o que não condiz muito com o que se espera de um documentário).

Segundo o Houaiss, os dois verbos têm a mesma origem: o latim “invenire”, achar. Achar uma coisa nova, que não existia ou que ninguém tinha achado, no caso de “inventar”. Achar muitas coisas que estavam esquecidas ou dispersas, e reuni-las, no caso de “inventariar”.

Será que é aí que está a diferença entre o documentário e a ficção: entre o inventar e o inventariar? Ou entre o presente e o condicional?

O documentário cataloga
o que na ficção seria criação
ou imaginação ou fantasia.
Ou seja:
o documentário inventaria
o que a ficção inventaria.
Não que o documental não tenha invento
(a lenda impressa, de John Ford a George Stevens):
basta pensar na “História do vento”,
no pensamento radical de Joris Ivens.